O poker é, entre outras coisas, um jogo de probabilidades. Ter uma carreira profissional consistente exige uma boa capacidade de cálculo para saber o quão forte é a sua mão em diversos momentos de uma mesma rodada. Porém, nem sempre uma alta chance matemática é certeza de vitória. Quantas vezes você já viu um AA que bate trinca no flop perder para uma sequência formada no turn e river, por exemplo?

Um termo bastante popular no jargão do poker que define essa situação é o bad beat, ou seja, quando uma mão extremamente forte e com enormes chances de vitória acaba perdendo para uma mão totalmente improvável. Ou seja, é quando o acaso age a favor de uma mão inicialmente fraca que acaba se tornando a mais forte.

A princípio, um bad beat se assemelha muito com um cooler, que também ocorre quando uma mão muito forte acaba sendo batida por outra ainda mais forte. O que difere uma da outra é justamente a probabilidade: nos bad beats, as chances de vitória não são maiores que 15% ou 20%. Ou seja, é praticamente um “milagre” das cartas, quando o jogador tem pouquíssimos outs e mesmo assim vence a mão.

Para quem joga em alta performance, compreender um bad beat é fundamental do ponto de vista psicológico. Afinal, é o tipo de situação que deixa qualquer jogador propenso a um tilt, já que muitas vezes ele custa boa parte das fichas em uma aposta alta – isso quando não desencadeia uma eliminação após um all-in, como veremos nos exemplos a seguir.

Por isso, é crucial saber lidar com um bad beat e não tentar recuperar o prejuízo a todo custo agindo de forma pouco racional e deixando se levar pelas emoções. Os grandes jogadores, com ótimo suporte emocional, conseguem a recuperação aos poucos, e muitas vezes são recompensados estando no “lado vencedor” de um bad beat posteriormente, pois qualquer competidor está sujeito a eles.

Não foram poucas as vezes que um bad beat roubou a cena em grandes torneios do poker. Separamos abaixo algumas situações que deixaram os perdedores de queixo caído.

Olivier Busquet x Sven Reichardt – EPT Barcelona 2014

Um dos grandes bad beats da história recente aconteceu no European Poker Tour 2014, em Barcelona. O norte-americano Olivier Busquet recebeu e arriscou um all-in pra cima do alemão Sven Reichardt, sem saber que o rival tinha um par de reis. O flop veio com , dando ao alemão um full house e levando sua chance de vitória para 99%.

Busquet se viu em uma situação complicadíssima, dependendo de dois áses no turn e no river para reverter a situação. Pois foi justamente o que aconteceu: o 1% de chance virou 100% quando turn e river vieram com e , dando ao norte-americano um full house melhor que o de Reichardt – e um pote de 3,29 milhões em fichas.

Daniel “Jungleman” Cates x Phil Hellmuth – Premier League Poker VI (2013)

Até mesmo os mais notórios membros do Hall da Fama estão sujeitos a um bad beat. Em uma partida da sexta temporada da Premier League Poker, torneio organizado pelo partypoker, o lendário Phil Hellmuth recebeu e deu um raise pré-flop em Cates, que tinha e . O rival devolveu com outro raise e os dois engordaram o pote antes do flop. O board veio com , dando a Hellmuth uma probabilidade de vitória de 92%. Apesar disso, Cates apostou 21 mil, com o rival aumentando.

O turn veio com e aumentou um pouco as chances de Cates (25%), mas foi Hellmuth quem apostou alto, no que o rival aumentou outra vez. Com uma intensa troca de raises, o pote chegou ao river com 368 mil. Foi quando a mesa revelou um , dando ao “Jungleman” a improvável vitória diante de uma lenda do poker (após mais uma rodada de apostas no river, o pote chegou a 858 mil).

Roberly Felício x Sang Liu – WSOP Colossus 2018

Uma das maiores reviravoltas em um heads up do World Series of Poker aconteceu há dois anos, com um brasileiro envolvido. Roberly Felício e Sang Liu estavam praticamente empatados em fichas, e Felício arriscou um all-in com após o flop abrir . Com na mão, o norte-americano deu call. Depois da revelação das cartas, Liu entrou em êxtase e começou a fazer até a dança da vitória – naquele momento, sua chance de perder o pote era de apenas 12%.

Após um no turn, a probabilidade de vitória de Felício caiu ainda mais, para apenas 7%. Porém, um no river deu ao brasileiro dois pares e pavimentou o caminho para a conquista de seu primeiro bracelete no WSOP – ele é um de seis competidores do país a conseguirem o feito até hoje. Para Liu, além do bat beat, ficou a dura lição de nunca comemorar exageradamente antes da hora.

Kauvsegan Ehamparam x Ema Zajmovic x Jack Gong – WPT Montreal 2018

Na 17ª temporada do World Poker Tour, uma improvável situação de bad beat marcou a mesa final em Montreal. O canadense Jack Gong saiu com , mas foi seu compatriota Kauvsegan Ehamparam quem chamou um all-in com . A bósnia Ema Zajmovic também deu um all-in com , abrindo um side pot com Gong.

O flop veio com , dando a Gong uma chance de vitória de 94%, contra 4% de Kauvsegan e menos de 1% para Ema. Foi aí que o improvável aconteceu. Turn e river vieram com e , dando a Kauvsegan um ace-high flush e o pote principal. Com um Q-high flush, Ema ficou com o side pot. Já Jack Gong saiu de 94% para uma eliminação traumática e amargou um dos piores bad beats da história!

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