William Arruda, hoje com 33 anos e amplamente reconhecido no mundo do poker, era ainda um jovem de 20 anos – dividido entre a Faculdade de Direito no Mackenzie, em São Paulo, e o início da carreira no jogo – quando descobriu, em 2008, ter um dom para ensinar.
Na época, o poker engatinhava no Brasil. E o país não possuía nenhum vencedor de bracelete na WSOP nem tão pouco uma legião volumosa de craques no online. Jogadores buscavam um ‘norte’. Seja em clubes, livros, videoteipes do World Poker Tour e WSOP ou nos fóruns virtuais.
Foi no final daquele ano que o Will – como é conhecido – criou, em parceria com Caio Brites, o Sit and Go Team Pro. Primeiro projeto de staking brasileiro, o S>P nasceu com a ideia de capacitar jogadores para lucrar com o desempenho deles em torneios com field pequenos.
Era o começo de uma longa história. A partir do Sit and Go Team Pro, Will faria nascer, com seus sócios, o gigantesco 4Bet Poker Team, dois anos depois. Will e Caio não sabiam, mas aquela iniciativa, da época em que “tudo era mato”, seria um marco na história do poker brasileiro. Era o começo do novo tempo.
“Vai o xadrez… vem o poker“
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“Acredito que o Will se tornou muito grande no poker porque ele trouxe uma obstinação pelo conhecimento que é própria do enxadrista – porque o enxadrista se não estudar fica para trás – somada a uma persistência muito grande, além de uma combatividade na defesa das suas ideias”…
As palavras acima são de Victor Marques, narrador, figura histórica do poker brasileiro e amigo de Will há quase 17 anos; desde 2004, época em que o fundador do 4Bet sabia tanto de poker quanto de física quântica e viajava pelo estado de São Paulo para competir em torneios de xadrez.
Vitão acompanhou de perto a transição de Will dos tabuleiros para as mesas e atribui o sucesso do amigo a uma combinação entre “mentalidade de enxadrista” e personalidade forte.
Em 2005, Will interrompeu sua carreira no xadrez. E logo em seguida, conheceu a cena do poker. Quando viu que não teria o futuro profissional desejado no milenar jogo de reis e rainhas, ele buscou novos rumos e encontrou – graças a influências de amigos do meio do xadrez – ao Texas Hold’em.
Na época, Eduardo Marra e os próprios irmãos Vinícius e Victor Marques começavam a brilhar no incipiente poker brasileiro do início dos anos 2000. Will viu o dinheiro rolar e se interessou.
“O que me chamou a atenção na época foi ver alguns amigos que não tinham dinheiro e eram duros começarem a ganhar dinheiro jogando”, diz Will, que conversou recentemente com o blog do partypoker. “Vi meus amigos ganhando dinheiro com o Poker e resolvi fuçar“
“Bem mais que 50 livros”
Em 2005, o poker se espalhava pelo país: com pequenas ‘cenas’ em cidades. Um pouco no Rio, o primeiro polo, um pouco em SP, um pouco em Campinas e assim por diante. Will, apesar de paulistano, começou a jogar em Santos, onde morou, com sua mãe, quando fez cursinho pré-vestibular. Na maior cidade do litoral paulista, teve os primeiros passos frequentando home games organizados pelo local Stetson Fraiha, destaque do poker naquela época.
O interesse no jogo já vinha há alguns meses, mas Will só estreou quando sentiu-se preparado para investir seu dinheiro. Nesse intervalo, devorou dezenas de livros disponíveis sobre o poker. A literatura, hoje em desuso no estudo do jogo, foi a porta de entrada do jovem.
“Eu fui bem estudioso com livros. Comecei lendo o Super System (livro lançado por Doyle Brunson, em 1979); depois, li a série de livros do Dan Harrington sobre torneios – cada um três vezes. Sabia que eu não podia perder dinheiro, então eu me preparei muito para colocar meu primeiro real no jogo”, conta o jogador, mais de uma década depois. “Depois eu li Theory of Poker (do americano David Sklansky). Esses foram os principais, mas eu li muito mais. Eu ia na Amazon e comprava livros e livros. Foram bem mais que 50 livros de poker. Eu lia tudo mesmo. Todas as ideias que possíveis eu lia a respeito”.
O estudo pagou dividendos. Rapidamente, Will obteve bons resultados tanto ao vivo quanto no online. Imerso no universo dos clubes e home games, o jogador encontrou sua vocação.
“Ali estava nascendo o Will Arruda coach”
Will e Caio se conheceram em Santos – dividindo mesas de torneio e cash games – e rapidamente formaram uma parceria. A princípio, faziam swap – divisão de cotas para diminuir variância nos torneios –, discutiam mãos e estratégias.
Os dois tinham viviam contextos diferentes, que se completaram. Um ano mais velho, Caio – que é neto de Joaquim Brites, um dos empresários mais respeitados de Santos, e filho do empresário Pedro Brites (dono da primeira casa de poker de São Paulo) – já tinha estabilidade financeira e se permitia correr riscos. Will, por outro lado, não tinha dinheiro para perder, mas era estudioso e tinha muito desejo em ganhar.
“Meu primeiro aluno foi o Caio”, lembra Will, remontando o início de sua história como instrutor poker. ”Não era bem um aluno. Foi uma parceria nossa. A gente jogava junto, meio a meio, mas eu ensinava ele muito mais, então eu encaro como meu primeiro aluno”. A parceria com Caio deu certo. Daí, veio, naturalmente, a ideia de conseguir mais alunos.
Armando Sbrissa – um nome de destaque no poker live paulistano nos primeiros anos da modalidade no Brasil e também no online – foi, depois de Caio, o primeiro aluno/parceiro de Will. Os três se conheceram em São Paulo, num clube chamado All-In, no bairro de Moema.
Will – que já havia voltado a morar em São Paulo – e Caio fecharam acordo com Armando – mais conhecido no meio como Zareta. A princípio, a parceria consistia na troca de cotas, com cada um ficando com 50% dos ganhos do outro.
“O Will ainda não era ainda meu coach. A gente era parceiro”, conta Sbrissa. “A gente rachava esse valor da reta de domingo. Daí chegou um momento que ele nem perguntava mais os valores. Eu jogava e depois a gente acertava”.
O objetivo da parceria era, principalmente, disputar torneios de Sit and Go de até 45 jogadores. Sbrissa tinha como foco o grind e Will a busca de novas informações e aprendizado.
“Sem as ferramentas que existem hoje a gente discutia muito. Definíamos ranges e avaliávamos perfis dos jogadores. Não tínhamos acesso a HUDs. Não usávamos softwares como poker tracker e Hold’em manager”, lembra Sbrissa.
“O Will clareou muito as minhas ideias. Ele foi fundamental nesse início de carreira. Para o meu entendimento estratégico do jogo. Principalmente em definição de range. Definição de open raise. Steal e re-steal. Ele sempre foi, no bom sentido, o nerd da parceria, que sempre ia atrás de estudo”, conta Zareta.
“Ali estava nascendo o Will Arruda coach”, diz Sbrissa. “E eu sempre encho a boca para falar que ele é disparado o melhor coach que eu já tive. Não só como coach, mas um administrador e um cara sensacional”.
Em 2008, Sbrissa rompeu a parceria com Will e Caio e começou a jogar para Felipe Mojave. Foi justamente nessa época que surgiu o Sit and Go Team Pro. “Veio o Armando Sbrissa – que a gente conheceu no live –. Depois veio o tio do Caio, que não deu certo, e a gente resolveu o um time de poker”, diz Will.
“Bom, pouca gente me conhece…”
O Sit and Go Team Pro nasceu pequeno e sem reconhecimento. Will tinha bons resultados em torneios online, mas não era conhecido por tanta gente. Por isso, foi atrás de novos alunos em fóruns de internet.
Em 24 de dezembro de 2008, às 14:01 – talvez enquanto se preparava para a ceia de natal –, Will criou – como usuário Hellzito (nome que até hoje em muitos sites) – o tópico The Well com Hellzito, no Fórum MaisEV, para promover seu projeto de staking.
“Bom, pouca gente me conhece, anunciei meu Coaching de SNG de MTT e MTT puro faz 3 dias e aos poucos estou começando a participar do Fórum (…) Estou colocando a cara para bater”, dizia o jogador, em sua apresentação. Em outro texto, Will narrava sua história no poker até aquele momento.
A iniciativa foi vista com ressalvas e desconfiança por membros do fórum, inclusive figuras que ganhariam notoriedade no poker nacional. Ivan Santana – o Royal Salute do cash game – questionou a terminologia usada no post: “Sng de mtt e mtt puro? O que seria isso? Sits são sits, one table tournaments… e MTTs são MTTs, ou estou ficando louco? ”.
Gabriel Goffi, que se tornaria pouco tempo depois o maior jogador de cash games do Brasil, se mostrou ressabiado com a mensagem de Will: “Você já participava do MaisEV sem postar ou entrou apenas para oferecer o coach? ”.
Além dos dois, outros nomes clássicos do poker, como Devanir Campos (DC), Fábio Monteiro (‘Deu_Zebra’) e próprio Caio Brites (CaioDream) aparecem naquela conversa, que se estendeu ao longo de alguns dias.
O anúncio gerou certo burburinho no fórum, mas poucos jogadores entraram, de fato, na turma número 1 por meio daquela ‘propaganda’. “Desse post que eu fiz no MaisEV, foram bem poucos alunos que eu peguei. Alguns vieram para o time futuramente. Era a maneira de ganhar algum dinheiro na época”, lembra Will, que enviou aos interessados um questionário com perguntas técnicas sobre poker, como forma de pré-seleção.
Um dos selecionados foi Vitor ‘Brasil’ Moreira – que hoje trabalha com Will, no 4Bet. O carioca gabaritou a prova de admissão (feito que nunca foi repetido), e iniciou, no começo do ano seguinte, uma parceria que dura até hoje.
“Eu conheci o Will por volta de 2009, quando eu estava dando meus primeiros passos no poker quando ele e o Caio Brites começaram um projeto para jogadores de Sit and Go”, lembra Vitor.
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Uma coisa leva a outra
O S&G Team Pro foi um sucesso que durou cerca de um ano. Foram três turmas bem sucedidas que geraram amostragem suficiente para fazer Will levar a frente seu novo projeto: um time focado na disputa de MTT (multi-table tournament).
“A ideia de montar a equipe de torneios foi minha, porque estava dando muito certo. A gente já tinha tido três turmas. E nós tínhamos uma proporção ótima, porque de cada seis, cinco eram lucrativos”, lembra o Will. “A gente tinha um método nosso de jogar Sit And Go que ajudava. Era muito difícil não ganhar”.
De fato, a maioria daquela geração de pupilos de Will obteve sucesso grande – e quase sempre imediato. À medida que método se provava vencedor, os objetivos se tornavam mais ousados.
Em 2009, Sbrissa, após um ano com Mojave, retomou a parceria com Will e se tornou jogador do S>P. Daquela época, ele se lembra em detalhes de como eram os desafios impostos aos jogadores da equipe: “a meta era começar com os Sit &Go de US$ 5.50, depois evoluir para o de $ 11, de $ 26 e depois de $ 75, no Full Tilt Poker”.

Will ao lado de Armando Sbrissa (à esquerda) e Marcos Sketch Foto: Facebook
“Eu passava o dia inteiro estudando com o Fabio Eiji. Eu consegui bater a meta em um mês e uma semana, um recorde na época. A meta era chegar a 10 mil dólares de lucro. E, depois de 10 mil dólares, era possível migrar para o MTT ou virar instrutor”, conta Sbrissa. “O Will chegou para mim e disse: “Vamos jogar jogos de gente grande. Saia do S & G e venha para o MTT. Nessa fase eu troquei de turma e fui para o MTT. Tudo sob comando dele. Isso aconteceu em 2009”.
Sketch e o 4Bet
Ao longo do ano de 2009, amadureceu a ideia de transformar o Sit and Go Team Pro numa equipe permanente de MTT, mas a transformação definitiva só viria no ano seguinte, após a adição de um terceiro elemento à sociedade: o carioca Marcos Sketch.
Sketch entrou para o grupo por intermédio de Caio, a quem conheceu e ficou amigo durante a disputa de um torneio chamado Nordeste Fest.
“Conheci o Caio Brites, na época sócio do Will no S>P, num torneio ao vivo. Desde o início, o Caio me falou que eu tinha que conhecer o sócio dele, que era um baita gênio, isso aquilo…”, lembra Sketch, que na época trabalhava como produtor musical da banda carioca ForFun e jogava poker como hobby.
Em 31 de janeiro de 2010, o projeto começou a ganhar vida. Em uma troca de mensagens numa a madrugada de sábado para domingo, Will propôs a Sketch a criação do que seria o maior time de poker do mundo. Veja a transcrição:
- Will: Sketch, tô com uma ideia legal, já falei com o Caio. Que acha de montarmos um time de MTT nós três.
- Sketch: Fala Will. Cheguei agora. Time de MTT nós 3. Como? Explica.
- Will: Cara, mesmo esquema do S>P. Nós três como professores e vamos montando o time. Temos nomes legais. Kovalski (instrutor do S&G Team Pro), que jogam bem e dá para arrumar mais gente.
- Will: Tipo, não dá para ser muita gente porque o investimento é muito alto, mas montar um time de MTT pode ser mega lucrativo a longo prazo.
- Sketch: Opa, Caio tinha falado comigo um tempo atrás. Eu achei a ideia f… Vamos colocar no papel, pesquisar melhor e avaliar os custos de bankroll. Mas eu ‘pilho’ sim.
Como o antigo nome fazia referência a torneios S&G, uma nova alcunha teve que surgir. Assim o S>P virou 4Bet Poker Team.
“4Bet”… Nome parecido com ForFun – banda da qual Sketch era (e ainda é) empresário. Mas a semelhança de sonoridade foi coincidência. “A ideia, no fim das contas, foi do Caio mesmo”, diz o carioca.
Uma das primeiras iniciativas do 4Bet foi a criação de fórum – batizado Forum4Bet – e quase ao mesmo tempo, a criação uma equipe fixa para jogar eventos ao vivo, que foi no primeiro ano um foco destacado do projeto.
“A gente criou juntos um Fórum de Poker, e o lançamento desse fórum fizemos um ‘time” para jogar o circuito ao vivo durante 1 ano”, lembra Sketch. “Fomos divulgando o fórum, e daí foi surgindo. Bem ou mal esses foram os elementos que fundamentaram a ideia”.
Início da revolução
A primeira turma, pequena, era formada, sobretudo, por egressos do S>P, com destaque para nomes como Fabiano Kovalski e Vitor Brasil. Em pouco tempo, porém, o time ganhou prestígio, graças a resultados nas mesas e também a ações inovadoras. A principal delas nos dois primeiros anos de 4Bet foi concepção da Poker Villa, em 2011.
O projeto – uma espécie de Big Brother do poker – confinou sete jogadores em uma casa no Guarujá, litoral de São Paulo, com o objetivo de criar o ambiente perfeito para a evolução do jogo de cada um.
“Em 2010, eles já estavam com a ideia da primeira Poker Villa. As vagas já estavam preenchidas, mas eu pedi para ele (Will) dar um jeito, nem que eu tivesse que dormir no quarto do caseiro”, lembra Armando Sbrissa, um dos sete jogadores participantes do projeto.
Só feras
A lista de participantes na primeira Poker Villa impressiona. Além de Zareta, integravam aquele time Thiago Crema, Fabiano Kovalski, Rafael Moraes, Felipe Nunes, Vitor Moreira e Leonardo Pimentel Streit.
Do grupo, só Streit deixou o poker precocemente. Os outros todos se tornaram referências, seja jogando ou ensinando. Naquela casa, se viu o trabalho de Will deixando um legado para o poker nacional, mas sobretudo para os sete “Brothers”, por assim dizer.
“Eu tinha que viver um projeto daquele. Fizeram o possível e me colocaram na parada. Ali foi onde eu mais aprendi. Disparado, em um período curto, de um ano. Aprendi com os melhores”, diz Sbrissa, que acabou vencendo, naquele mesmo ano o Sunday Million, seu melhor resultado na carreira.
Os filhos do 4Bet
O 4Bet incendiou o poker nacional e deu ao mercado a certeza que times de poker poderiam ser grandes negócios. Em pouco tempo, brotaram diversas novas equipes pelo Brasil. Daqueles sete integrantes da Poker Villa inicial, três deles investiram, mais tarde, em seus próprios times.
Zareta fundou o Smart Poker Team, hoje inativo; F. Nunes e Kovalski investiram, respectivamente, no Flow e no Samba Team. Os outros três, Vitor Brasil, Rafael Moraes e Thiago Crema seguiram no 4Bet. E cresceram dentro da estrutura da equipe.
Era uma revolução vinha para ficar. Em cada canto do país, surgia uma nova inciativa para emular o sucesso da equipe de Will e sua turma: de Porto Alegre, veio o Bedias Team, de Goiás, o Steal, de São Paulo, o Akkari… E assim a coisa foi evoluindo.
“Se você for pensar em times de poker. Sem o 4Bet eles não existiriam”, reconhece Will, consciente da importância histórica de seu trabalho para o poker brasileiro. “Os melhores jogadores passaram por aqui e outros times se formaram com ex-alunos nossos. Nós não teríamos um mercado de time tão grande e um mercado do poker brasileiro tão forte se não fosse o 4Bet”.
Enquanto uns surgiam e se mantinham, outros desapareciam. Enquanto isso, o 4Bet – sempre com Will responsável pela capacitação técnica dos jogadores – não apenas seguiu firme, como cresceu muito. Até um ponto em que o instrutor passou a precisar de parceiros para tocar o desenvolvimento de seus alunos.
Rafa e Crema: Parceiros geniais
Quando Will passou a precisar de ajuda, o 4Bet entrou em uma nova fase. Agora com mais dois sócios: Thiago Crema e Rafael Moraes, dois dos melhores alunos de Will que evoluíram a ponto de se tornarem parceiros na tarefa de desenvolver novos jogadores.
“O Rafa e o Crema entraram na época que eu estava na parte técnica um pouco sozinho. Eles já estavam em um nível excelente, então eles entraram para me ajudar na parte de coach dos jogadores”, diz Will. ”Sem os dois não teríamos crescido tanto como crescemos. Dois caras geniais fundamentais para a parte 2 da história do 4Bet – que é marcada por se manter como maior time do mundo”.
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Técnica, psicológico – construindo a lenda Will Arruda
Seja em 2020 ou seja em 2008, Will nunca foi uma figura midiática. Mesmo assim, sua fama se espalhou como pólvora pelo nicho do poker junto com o sucesso do 4Bet.
Quem entrava no time evoluía muito. Alguns, como Rafa e Crema, entraram no panteão dos maiores jogadores do Brasil. Mas não só eles. Yuri Martins – hoje talvez o maior nome da história do poker online no Brasil – acertou as arestas que faltavam em seu jogo graças a sua passagem pelo time.
Yuri, que passou pelo 4Bet no início da década, hoje faz parte do NineTales, grupo que reúne dos melhores do Brasil. Ao seu lado nesta equipe, sete dos melhores jogadores do país. Desses, quatro – Rodrigo Seiji, Pablo Brito, Headão (Victor Begara) e Gustavo Mastelotto – foram formados no 4Bet.
Mastelotto costuma ressaltar como seu jogo subiu vários degraus sob tutela de Will. Em entrevista ao podcast PokerCast, do grupo SuperPoker, em novembro de 2020, Gustavo diz que os anos no 4Bet moldaram seu resto de carreira.
“Era tudo voltado para o processo (de evolução). Já naquela época se eliminava o fator financeiro. Se eliminava o fator medo. O que eu preciso fazer em cada spot. Em cada street para maximizar o meu EV”, diz o craque. “Esse approach teve um impacto muito grande na visão do meu jogo. Antes eu ficava travado e eles começaram a apontar uns pontos cegos que eu não notava”.
Sempre a frente do tempo
A evolução no poker é uma ciência, mas de certa maneira é uma arte também. É necessário, além de um banco de dados recheado de todo tipo de informação, ter sensibilidade e atenção a detalhes que só poucos privilegiados possuem. Os resultados dos jogadores do 4Bet série após série, domingo após domingo, mostram que Will pertence a esse clube cujos membros se contam em uma mão.
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O segredo para se manter no topo? Bem, o segredo mesmo – se é que existe algum – ele guarda para si e para seus parceiros de 4Bet. Revisitando a carreira do craque, porém, encontramos aqui e ali elementos e traços que apontam na direção de um caminho tão vitorioso.
A principal delas é o trabalho, constante e rigoroso. Por meio do estudo, da pesquisa, de incansáveis análises de mãos e do comportamento de centenas de adversários, os jogadores do 4Bet encontram sempre o sucesso nos MTTs online.
A “resposta correta” no poker pode traiçoeira. Muitas vezes, ela muda e se torna errada de um dia para o outro. Mudam-se os padrões o tempo todo: surgem novos jogadores e, com eles, novas tendências e “verdades”.
Seguir na vanguarda do entendimento do jogo, mesmo após 12 anos, é o desafio; antever as mudanças antes da maioria tem sido a rotina da equipe do 4Bet liderada por Will Arruda.
Passos da evolução: Mestres e divisores de água
As leis do aprendizado são misteriosas. Embora a evolução seja constante, há instantes são divisores de águas na trajetória de um profissional de poker – seja jogador ou instrutor.
No caso de Will, houve alguns momentos que fizeram a diferença na maneira como ele enxerga o jogo. O primeiro deles aconteceu quando o brasileiro teve como mentor Matthew LaGarde, conhecido como (mlagoo), em 2008, ainda antes da formação do 4Bet.
O americano pode não ser tão conhecido do público do poker atualmente, até porque se aposentou por causa da proibição do poker online nos EUA de 2013, mas foi fundamental para organizar as ideias e fazer Will enxergar com mais clareza o jogo pós-flop.
“Foi o cara que me ensinou muito a pensar coisas matemática do jogo. Ele tinha um pós-flop incrível. Ele estava sempre certo nas coisas”, diz Will. “É uma pena ele ter parado de jogar depois da Black Friday, mas ele foi um cara que até hoje eu agradeço sempre que posso, porque ele realmente ele pegou todos os meus pensamentos perdidos e juntou. Foi algo incrível”.
LaGarde foi um dos primeiros pensadores internacionais do jogo a que Will teve acesso. Com o tempo Will – sempre ao lado de seus parceiros de 4Bet, especialmente Crema e Moraes – se tornou ele mesmo a referência técnica e o responsável por soluções em jogos de alto nível.
Outra experiência marcante na formação de Will foi o curso chamado “Memoirs of Aejones”, com o qual teve contato em 2008.
Em um post no Instagram do 4Bet, em 2019, Will lembrou do aprendizado. “Foi um dos cursos pioneiros nesse formato, bem antes da febre dos vídeos, e era vendido por uma fortuna (algo tipo US$3.000). Mas era um material sinistro, com dezenas de horas de conversas entre o Aaron “aejones” Jones (pro de cash game na época) e o Andrew “luckychewy” Lichtenberger, debatendo situações de jogo de forma conceitual e teórica”, disse na época. “Era uma espécie de Podcast on steroids, cujo formato inclusive nos inspirou para algumas aulas do nosso 1° Curso, em 2016”.
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Ao longo dos anos, foram muitas as influências que moldaram o pensamento de Will e seus companheiros de 4Bet. Astros internacionais ou nacionais, como André Akkari, que foi parceiro do time por um período, e Ivan “RoyalSalute” Santana (aquele do chat do mais EV).
No começo do ano passado, o 4Bet firmou parceria com astro português João Vieira, mais conhecido como Naza114.
“Existem oportunidades especiais. Para mim, só fazia sentido trabalhar com time se fosse com um super-time como o 4Bet”, disse, em entrevista ao site MundoPoker, o português, em abril de 2020. “Nesta fase da minha carreira também só fazia sentido se fosse trabalhar com o maior time que encontrasse”.
Mesmo fora do Brasil, Will e o 4Bet são reconhecidos como referências técnicas do jogo. Um legado construído a base de estudo profundo do jogo e um prestígio alimentado pelos resultados. Não apenas da equipe, mas de Will.
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Will, o jogador: “Jogo para seguir atualizado”
Nos últimos 10 anos, nosso personagem progressivamente deixou de ser o que se chama no meio do poker de grinder. Ou seja, aquele jogador que joga dezenas e dezenas de torneios todos os dias.
O crescimento em ritmo acelerado do time fez com que o lado jogador cedesse espaço, na maior parte do tempo, ao instrutor, tantas são as aulas e as mãos e os spots a se avaliar e discutir a cada dia.
Mesmo assim, de tempos em tempos, Will, o jogador, retorna. Geralmente nas séries e sempre em eventos caros e de alto nível. E geralmente com resultados expressivos sem precisar de uma amostragem grande.
Só para ficar no partypoker, mesmo sem colocar volume, nos últimos dois anos foram Will conseguiu dois hits perto da casa dos seis dígitos. Em setembro de 2020, foi vice-campeão do The Big Game de $ 5.300, torneio mais técnico do poker online, e levou 146 mil dólares; em 2018, jogando com o misterioso nick IgorFederal, venceu o Evento 50-H da Powerfest e ficou com 92 mil dólares.
Esses são alguns de vários resultados expressivos obtidos por Will, mesmo sendo ele cada vez mais seletivo. Em toda a carreira são, de acordo com o site PocketFives, $3,372,406 em prêmios (de fato o valor é maior, porque o levantamento não leva em conta todos os sites) online em apenas 1.655 “cashs” (ou ITMs).
Números absolutos de muito respeito, que ficam ainda mais impressionantes quando avaliados em proporcionalmente. Na média, Will fatura, a cada vez que entra na zona de premiação, 2.027 dólares – o valor, para se ter uma ideia, é 35 % maior que o cash médio de Yuri “theNerdGuy” Martins, de $1.506, e 140% acima dos $844 de premiação média de Pablo ‘pabritz’ Brito, dois dos maiores nomes do poker high stakes do Brasil.
Os resultados de Will são, como mostram os números, um sonho de consumo para qualquer jogador do mundo. Se quisesse ser apenas jogador, estaria muito bem de vida – com lucro e prestígio – apenas duelando contra os melhores do mundo todas as semanas.
Mas há tempos Will Arruda não entra em um torneio apenas pela premiação. Altamente respeitado, o instrutor volta aos fields – e sempre aos mais qualificados – para provar a si próprio que ainda está no topo da ‘cadeia alimentar’ do jogo, que não foi alcançado pela evolução do esporte, que suas ideias não estão ultrapassadas. “Jogo para seguir atualizado”, diz.
No final das contas, o domínio técnico cada vez mais completo é uma obsessão de Will e do 4Bet. Além de ministrar cursos para centenas de alunos, Will, Crema, Rafa e os outros instrutores do 4Bet discutem novas ideias, novos approaches e novas soluções.
“É difícil estabelecer uma amostragem para confirmar se uma ideia nova dá certo ou não. Hoje em dia é mais fácil, com o hand2note, que é um software”, diz Will, sobre o processo de criação de soluções em um time de poker.
“Mas, mesmo assim, muitas vezes a avaliação é no boca-a-boca. Você testa uma coisa e pergunta: o que você acha disso? Já fez? Daí alguém vai lá em testa. E é preciso mais de uma pessoa, porque você sozinho muitas vezes não dá. Então é preciso cobaia. Várias cobaias testando e assim a gente vai descobrindo se funciona ou não”.
“Cobaia” no caso é apenas um termo para ilustrar como funciona parte do processo criativo de um time. Na verdade, as centenas de jogadores do 4Bet são expostos aos melhores testes que um profissional em formação pode ter.
Alguns jogadores, diz Will, parecem ter uma compreensão perfeita das teorias do jogo, mas encontram dificuldades de colocar o conhecimento em prática. “Para evoluir tem que jogar. Clicar o botão na hora certa. Tem muito cara que é leão de treino. Mas, na hora do jogo, o cara pipoca”, diz Will. ”A parte prática é mais importante que a parte teórica, embora você não possa dispensar os estudos”.
“Sobre as soluções”, prossegue Will. “A gente tem muita sorte de ter sócios geniais, que conseguem prever bem as coisas. E quando surge um problema a gente consegue ter cabeças que pensam de maneira diferente, então a gente chega a uma resposta boa. É incrível como a gente consegue resolver problemas de uma maneira eficaz. No final das contas, acaba sendo a busca pela solução e não apenas da vitória. Os debates que temos costumam resolver”.
Propostas indecentes
Ter como coach um dos maiores conhecedores de poker no mundo é um privilégio que muitos querem ter acesso. Will disponibiliza seu conhecimento apenas para seus alunos no 4Bet. Algumas vezes, porém, ele já recebeu propostas para treinar por fora. Em todos os casos, as ofertas foram recusadas.
“Já tentaram me oferecer algumas, mas quando a pessoa vem falar comigo sobre coaching eu já corto na hora. Já falaram alguns absurdos, claro. Mas não é comum. Até pela maneira como eu lido com isso”, diz o jogador.
Depois de fazer do 4Bet, ao lado de seus sócios, a equipe de poker mais reconhecida do planeta, nenhum dinheiro foi capaz de comprar o tempo do instrutor.
“Não vale a penas financeiramente. Eu teria que fazer muitos cursos para ganhar mais do que eu ganho, mas também uma parte filosófica”, diz o jogador. “Lançar um curso de qualidade, que seja algo diferente do que já tem por aí, exigiria de mim um tempo que eu não tenho. Então eu não conseguiria manter a qualidade que as pessoas esperam que poderia entregar. Então eu prefiro manter a qualidade do que eu faço hoje”.
4Bet – um gigante cada vez maior
Quando Will, Caio e Sketch criaram o 4Bet, a equipe tinha menos de uma dúzia de jogadores. Rapidamente, porém, o time se tornou um gigante do poker. Tanto pelos resultados, como pelo número de jogadores.
Atualmente, 11 anos depois, o time abriga 630 jogadores, divididos em uma estrutura que envolve cinco patamares (micro, low, mid, main e high stakes) e 11 turmas: Micro e Fox (Micro); White e Silver (Low); Alpha-Beta, Gama-Delta, Roots e Trip (Mid); Swat, Deluxe e Bedias Team (Main); Elite e Black (High Stakes). Além de ima turma de PLO5.
“O 4Bet começou com 10 pessoas, no máximo. Hoje temos perto de 600 pessoas. Difícil mensurar como ficou tão grande”, diz Will. Will e Caio – e depois Sketch – desde o começo pensavam grande e queriam chegar o mais longe possível.
Mas ele não fazia ideia, ao inaugurar o mercado de times, com o S>P, da proporção que o negócio tomaria. Na época, o maior projeto de staking do mundo era liderado por Cliff “JohnnyBax” Josephy e o Eric “sheets” Haber e Will trabalhava para se aproximar dos gringos.
“Eles tinham muitos cavalos. Na época do $ 100 com rebuy metade do field era deles”, lembra Will. “A gente pensava: quero ser esses caras. E os caras não tinham nem 100 jogadores. Então, pensando lá atrás, eu nem imaginava que iria chegar nesse tamanho”.
Já faz alguns anos que o gigantismo tomou conta do 4Bet. 11 anos após a conversa que deu início a tudo, o time que mudou o poker nacional de patamar trabalha para se manter no topo e aumentar seu legado.
Dos 15 jogadores vencedores da história do poker online do Brasil – segundo o site Pocket Fives – 10 deles passaram ou pelo 4Bet ou pelo S>P: Yuri Martins, Bernardo Dias, Pedro Padilha, Pablo Brito, Fernando Viana, Thiago Crema, Geraldo Cesar, Diego Bittar, Rafael Moraes e Douglas Ferreira.
| Jogador | Premiações Online | Discípulo de Will? | |
| 1 | João Simão | $9,653,019 | Não |
| 2 | Yuri Martins | $9,130,893 | Sim |
| 3 | Caio Pessagno | $8,480,227 | Não |
| 4 | Bruno Volkmann | $8,430,799 | Não |
| 5 | Bernardo Dias | $7,693,793 | Sim |
| 6 | Pedro Padilha | $7,625,076 | Sim |
| 7 | Pablo Brito | $7,086,337 | Sim |
| 8 | Brunno Botteon | $6,739,286 | Não |
| 9 | Fernando Viana | $6,348,839 | Sim |
| 10 | Thiago Crema | $6,203,604 | Sim |
| 11 | Geraldo Cesar | $6,139,496 | Sim |
| 12 | Diego Bittar | $6,056,620 | Sim |
| 13 | Rafael Moraes | $5,985,244 | Sim |
| 14 | Douglas Ferreira | $5,891,673 | Sim |
| 15 | Kelvin Kerber | $5,598,670 | Não |
Além de vencer os grandes torneios e lucrar muito, Will sabe que mudou a vida de muitos garotos que hoje podem viver do poker. Um privilégio tão grande quanto cravar o The Big Game ou fazer mesa final no MILLIONS Online.
“Quando tem alguém que passou por aqui e se torna um ex-aluno e ele se torna vencedor é a melhor sensação que eu posso ter”, diz Will, em seu estilo habitualmente sucinto de se comunicar – especialmente ao falar se si próprio.
Vitor Brasil, um dos primeiros discípulos do líder do 4Bet, não economiza palavras para dizer como os anos de aprendizado ao lado mestre mudaram sua vida:
“Mais que influenciar minha carreira gosto de pensar no quanto o Will influenciou a minha vida, foi quem me deu as primeiras chances no poker, quem me transformou em jogador profissional, quem mais acreditou em mim ao longo desses anos e me deu força nos momentos difíceis”, conta Vitor. “Sou um jogador de muita sorte, aprendi e aprendo até hoje com os melhores jogadores e sou muito grato a todos, mas ninguém me ensinou tanto sobre poker quanto o Will, é sem dúvidas minha maior inspiração e o maior professor que já tive”.
Seja hoje ou amanhã, o líder do 4Bet está imortalizado. Não é possível contar as histórias da maioria dos craques de high stakes nacionais, nem da evolução técnica do poker brasileiro sem falar de Will Arruda.
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