Na primeira quarta-feira de março, o baiano Francisco Correia experimentou o melhor que o poker pode proporcionar. Um de dois representantes do Brasil no Main Event do MILLIONS Online, ele justificou, mão a mão, sua presença em palco tão grande. Paciente e corajoso, fez um torneio quase perfeito. Com poucos erros, saiu da sexta colocação, com 107.266.106 fichas, no início da mesa final, para conquistar o vice-campeonato e a fantástica premiação de $ 731 mil – valor obtido por acordo e próximo aos $ 774 mil do campeão Endrit Geci. Francisco, mesmo sem ser tão midiático, é um dos melhores jogadores do Brasil e já chegou à decisão com larga bagagem técnica e experiência em momentos decisivos. Atualmente, ele é um regular lucrativo que oscila entre os mid e os high stakes, com buy-in médio entre $ 300 e $ 400.
Essa não foi a primeira premiação de seis dígitos na carreira do jogador. Em maio 2016, Francisco, atuando com seu nick mais conhecido, chicalltreta, conquistou a primeira delas: $ 163 mil pelo vice-campeonato num torneio de $1.050 de outro site.
Mesmo assim, ao se classificar à decisão, o profissional se colocou em uma situação sem precedentes. Afinal, um prêmio de $ 892.274 – valor inicialmente destinado ao campeão do Me – é capaz de mudar a vida da grande maioria dos jogadores, mesmo os regulares de high stakes online.
E a pressão foi grande durante toda a decisão. Com o terceiro pior stack no início da mesa final, ele sabia que o preço de cada move seria crucial. Em que pese a ótima estrutura, com trocas de nível a cada 40 minutos, qualquer erro poderia significar uma diferença de centenas de milhares de dólares.
Era tensa a situação, mas Francisco quase não errou e se deu bem nas mãos importantes – seja por fazer a leitura correta ou por contar com ajuda do baralho. “Durante a mesa final, meu foco era apenas tomar a melhor decisão e jogar de maneira cirúrgica, porém sem medo”, diz o jogador, que conversou na última semana com o Blog do partypoker.
Na primeira metade da FT, o brasileiro teve os líderes à sua esquerda. Uma situação de pressão que só começou a melhorar depois da eliminação de Hermogenes Gelonezi, o outro brasileiro na mesa final, na quinta colocação.
“Com o jogo 4handed, pelo primeiro momento eu pude soltar mais o jogo, pois tive os chipleaders na minha esquerda a mesa toda e realmente joguei bem poucas mãos. Tive sorte quando precisei e joguei bem até o heads up”, afirma Francisco, que chegou a ser o último, com cerca de 20 blinds, quando restavam quatro, mas se recuperou e conseguiu avançar.
Na decisão, Francisco fez logo de cara um acordo bem favorável que minimizou a diferença entre campeão e segundo colocado. Ficou assim combinado: $ 731. 959 e $ 724.838 garantidos para Francisco e Geci, respectivamente, com $ 50 mil a serem disputados.
Na final, o brasileiro perdeu as mãos mais importantes e o troféu de campeão. Um pequeno senão em um torneio de sonhos. “Foram várias mãos chave. No dia 1, ganhei um pote de 80 big blinds pagando all-in no turn, com top pair e quebrando AA do vilão no river”, lembra o jogador. “Além dessa, tiveram algumas mãos em que dei all-in e o adversário foldou mãos que dominavam a minha: um 66 x 99 do Hermogenes, na bolha da mesa final. Teve também um duelo QT suited x AT do (Dzmitry) Urbanovich, no 4handed, em que o T sozinho formava sequência, mas a minha dama formava sequência maior. Foi uma mão fundamental que me colocou no heads up”.
Como o torneio, foi transmitido ao vivo, pela Twitch do partypoker, Francisco pode ter a noção de quão perto esteve da eliminação precoce ou de perder mãos cruciais. E pode ver como precisos foram seus moves no jogo.
Ao final de tudo, o jogador baiano somou em seu bankroll um dos maiores prêmios brasileiros de 2021. Foram, em reais, quase 4 milhões. Um valor que consolida o ótimo momento de carreira de Francisco e coloca o profissional em situação confortável para definir seus próximos passos no poker. Mas não um valor que lhe cause, ele afirma, qualquer tipo de deslumbramento.
“Não muda tanto assim o planejamento de minha carreira esse hit. Meus planos seguem (…). Meu ABI não vai mudar muito. Um jogador não deve escolher quais stakes vai jogar levando em conta o lucro, mas sim ROI que tem naquele stake. Eu já jogo bastante caro e acredito que nos stakes superiores aos que eu jogo há muitos jogadores super bem preparados que possivelmente terão edge sobre mim. Continuarei esses eventos caros com garantido alto, como já vinha fazendo, talvez com gordura para dar mais tiros se for necessário”.
Carreira: ascensão e queda
Francisco começou no poker como muitos, jogando despretensiosamente com amigos, mas não demorou até ele rumar para o profissionalismo. Isso aconteceu há cerca de sete anos.
“Comecei a levar mais sério em torno de 2013-2014, quando após alguns pequenos resultados resolvi largar a faculdade de direito para tentar a vida de jogador profissional”, diz o jogador, que cursava a faculdade de direito, em Salvador.
Os primeiros meses como jogador regular foram bem sucedidos e renderam a Francisco o convite para integrar o Copo de Neve, equipe recém-criada por Hélio Neves e João Sydenstricker.
A parceria com Hélio e João, ambos nomes importantes ainda hoje no ensino do poker, impulsionou a carreira de Francisco, tanto técnica, como financeiramente. Em pouco tempo, ele subiu seu nível médio de buy-in; em 2016, já era um nome conhecido no meio; em 2017, entrou, por tabela, no Samba Poker Team, quando o time de Kelvin Kerber e Fabiano Kovalski absorveu a estrutura do Bola de Neve.
Estagnação no Samba
Tudo parecia caminhar perfeitamente quando Francisco entrou para o Samba. Estava em um dos melhores times do mundo e teria contato com jogadores e instrutores de competência indiscutível.
Mas as coisas não saíram conforme o esperado. Por um ano e meio, o jogador viveu seu pior momento na carreira. Entre janeiro de 2017 e maio de 2018, Francisco esteve estagnado, acumulando num período de quase dois anos um pequeno prejuízo.
“Era tudo bem diferente e problemas de foco e de confiança fizeram com que minha passagem por lá fosse bem aquém do que eu gostaria. Foi o único período de minha carreira que eu fiquei estagnado, grindando pouco e ganhando menos ainda”, lembra o jogador.
Francisco prefere não entrar em detalhes sobre o que levou ao momento ruim, mas momentos de baixa fazem parte do poker e ele viveu um que quase o fez abandonar a carreira.
Francisco se viu numa encruzilhada, sem um caminho fácil e óbvio para escolher. A decisão, muito difícil de ser tomada, foi deixar o Samba e embarcar em outra empreitada. “No meio de 2018, estava desgastado com a situação de não ganhar dinheiro no jogo por mais de um ano e meio e resolvi sair do Samba para integrar um projeto já existente”, lembra.
Francisco se uniu então a uma a uma nova equipe: o Skyteam, liderado pelo português. Pedro Oliveira. Dessa vez, além de jogador, o baiano entraria como sócio.
A troca da segurança no Samba por um novo projeto, agora atuando como investidor também, foi pontapé inicial de uma revolução na carreira do jogador, mas a mudança não aconteceu imediatamente
“O começo foi duro, era difícil pra mim conciliar o trabalho de backer com o grind, e a confiança ainda andava baixa por conta do longo tempo sem ganhar”, lembra o jogador, que sofreu com fortes crises de identidade.
Desabafo
Em junho de 2020, Francisco já estava recuperado dos piores momentos da carreira. Na verdade, vivia ótimo momento novamente, mas ainda carregava marcas daquela fase.
Foi nesse momento em que o profissional surpreendeu muitos de seus seguidores com um relato, publicado no Instagram, ao mesmo tempo duro, honesto e reflexivo abordando temas delicados que afligem muitos jogadores, mas muitas vezes não vem à tona.
No texto, polêmico, o jogador vai na contramão do que espera de um jogador bem sucedido e questiona o quanto vale a pena viver de poker
“Vejo vendo muita gente me pedindo dicas sobre o poker e perguntando sobre como começar uma carreira, muito entusiasmados com o vislumbre de uma vida glamorosa, onde o ganho é em dólar e que abrange diversas coisas que excitam o imaginário popular como viajar bastante pala lugares legais, fazer seu próprio horário de trabalho etc. Minha primeira dica é: não tente”, dizia Francisco. “Essa declaração pode parecer bem confusa, um jogador que acaba de ter sua melhor fase na carreira ‘desincentivando’ (sic.) outros a seguir seus passos, então vamos por partes para entender melhor”.
Na sequência do texto (leia abaixo na íntegra), o jogador agradece ao poker por tudo o que modalidade fez por ele e como mudou sua vida, mas toca nas feridas e em aspectos negativos da vida de grinder, como a incerteza nas downswings e a natureza antissocial do jogo.
“Por consequência de jogar poker as pessoas se tornam muito mais antissociais do que a média, tendo uma rotina no dia a dia muito mais solitária e com menos acesso a pessoas e experiências novas. Há sete anos, o domingo, dia em que as pessoas normalmente estão se divertindo com família e amigos, é o meu principal e mais longo dia de trabalho”, desabafou Francisco, na época. “A incerteza e ansiedade causadas pela ausência de rendimentos fixos também é algo que afeta demais o psicológico de um jogador, já teve dias em que chorei, outros em que mal conseguia raciocinar devido ao turbilhão de pensamentos negativos”.
Francisco até cita o renomado Dan Coleman, um dos maiores nomes da história da modalidade, que chegou a se aposentar depois de faturar mais de 28 milhões de dólares.
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Arrancada e auge: MILLIONS, a cereja no bolo
Era maio de 2020 quando Francisco surpreendeu a muitos com sua sinceridade. Naquele momento, ele ainda vivia uma dualidade de sentimentos. Tinha marcado no corpo os maus momentos, as lembranças de dias ruins, mas começava a experimentar um novo auge.
No final de 2019, ele voltou a conseguir um novo hit e em maio obteve mais uma premiação de seis dígitos. Desde então, o grinder só fez crescer e se estabeleceu com um dos brasileiros mais lucrativos nos seus limites.
No ano passado, durante a disputa do World Online Championships, do WPT, no partypoker, esteve entre os melhores no ranking geral da categoria principal; o jogador enfileirou uma série de bons resultados na série. Incluindo, um sétimo lugar no WPT 6-Max Championship, que lhe rendeu $ 54 mil.
Muito mudou desde a chegada de Francisco ao Skyteam e também desde que fez um post desabafo no ano passado. O jogador sabe, claro, dos perigos do poker, mas ele não tem planos de deixar esse mundo tão cedo.
Pelo contrário, com a vida estabilizada como nunca esteve e colhendo frutos por mais de um ano, o baiano pensa em investir cada vez mais em sua equipe. Atualmente, ele comanda o time com mais dois sócios. Além de Pedro, fundador do time, Éder Murata também está na empreitada.
“O time conta hoje com uns 20 jogadores mas estamos com intenção de expandir, e deve ocorrer”, diz Francisco, sobre o Skyteam. “A primeira seleção aberta do time será ainda esse mês”.
Uma carreira no poker é como um torneio ou até como uma mão – pode virar de cabeça para baixo muito de repente. Pode ser o inferno e pode ser céu. Francisco Correia conheceu o pior dos dois mundos, mas deu a volta por cima.
Na decisão do Main Event do MILLIONS Online, ele sentiu no bolso e na pele tudo o que poker tem de bom. Emoção, adrenalina, dinheiro e calor humano, mostrando que o grind nem sempre é antissocial.
“Meus amigos torceram muito nos chats da Twitch do partypoker, fizeram uma verdadeira bagunça”, diz o jogador. “Também ficaram super felizes e me parabenizaram muito pelo resultado, certamente isso ajudou muito para me dar força e aquela sorte na hora que precisava”. O carinho de muitos amigos feitos no poker motivou Francisco. Assim como a história dele vai impulsionar muitos que buscam um final feliz no poker profissional.
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