No final de junho, o cearense Dante Goya tornou realidade o que parecia impossível. Especialista no Pot Limit Omaha, o profissional foi dominante, por mais de duas semanas, em fields com os maiores competidores da modalidade e foi o maior destaque da versão mini da série de High Rollers Poker Masters PLO.

Por três vezes, ele conquistou um dos eventos da série, que neste ano foi sediada no partypoker – quase sempre disputando com rivais do mais alto nível. Estrelas como o húngaro Laszlo Bujtas ; os finlandeses Aku Joentausta , Jens Kyllonen e Joni Jouhkimainen ; o brasileiro Yuri Martins e o lendário sueco Viktor Blom .

Entre os dias 24 e 29, Dante venceu os eventos #05 (US$ 2.600 6-Max), #10 Mini Knockout (US$ 1.050) e #11 (US$ 1.050 6-Max). E ainda conquistou três pódios, sendo um vice-campeonato no Main Event de US$ 5.200, que lhe rendeu US$ 100.300.

Foram seis resultados expressivos e US$ 210 mil em prêmios para o cearense que ainda venceu o ranking da série, com quase o dobro da pontuação do segundo colocado.

Semanas como essa, mesmo para jogadores de alto nível, são quase uma aberração; ser vencedor em meio aos melhores do high stakes online é consagrador; mas dominar como Dante fez é quase um milagre, mas não para ele, cuja história é marcada, capítulo a capítulo, pelo inusitado.

Depois do melhor mês de sua carreira em torneios, Dante Goya conversou com o blog do partypoker. Falou do momento que vive, da atuação Poker Masters PLO, lembrou das origens e contou histórias de bastidor que a maioria dos fãs de poker não faz ideia.

‘Selfmade man’: Sem time, sem “cena”, sem problemas

Muito se comenta sobre quais os melhores caminhos para alcançar o sucesso no poker. Sem receita infalível, é consenso, porém, que o estudo é o ponto de partida e o conhecimento técnico indispensável.

Dante, nesse caso, não é exceção da regra. Esse sansei cearense – fazendo jus tanto à fama dos descendentes de japoneses no Brasil – é estudioso do jogo. O que chama a atenção, porém, nesse caso, é maneira pouco usual como o craque chegou ao mais alto nível.

Na experiência do poker online brasileiro – comprovadamente um dos melhores do mundo –, o exemplo mais notável de sucesso vem dos times – como os gigantescos 4Bet e Samba – que há anos formam muitos dos melhores profissionais, por meio de treinamento, ensino e disciplina.

Há também aqueles que não fazem parte de equipes, mas evoluem porque – além de estudiosos – estão inseridos em comunidades com grandes jogadores, em que há muita discussão e troca de informações, como acontece, principalmente, em algumas capitais como Curitiba, Porto Alegre e São Paulo.

“A cena de poker no Ceará, como em todas as regiões fora do sul do Brasil, é fraca. Embora o Ceará se destaca no Nordeste. Nesses buy-ins que eu jogo, atualmente só tem eu, Vitor Teixeira e Ivan Limeira. Até rola um grupo de estudo, mas não se compara. A gente não tem time, não tem nada”, admite Dante.

A história do personagem não segue nenhuma das duas linhas. Dante está mais para um ‘selfmade man’ – aquele se ergue do nada – do que para um produto do meio.

“Eu sempre preferi estudar sozinho”, diz o jogador, que estuda muito e constantemente, mas através dos diversos cursos que compra e da revisão que faz de milhares de mãos que joga naturalmente.

No campo Hold’em, atualmente a segunda modalidade do jogador, Dante diz ter como modelo o alemão Benjamin Rolle – o lendário bencb789 – que, além de ser um dos melhore jogadores de MTT do mundo, é referência no estudo.

“Nos últimos anos, (bencb789) foi o cara com quem eu mais aprendi poker. Eu acompanho muito ele. Tantos os cursos, como em rede social e o canal do YouTube”, afirma o brasileiro.

Apesar dos cursos com bencb789 não serem presenciais, é inegável que Dante bebe de boa fonte no que diz respeito do NLH.

O mais impressionante no caso do cearense, porém, é que no PLO – sua modalidade número 1 – a evolução aconteceu baseada basicamente na experiência própria do jogador.

“Pra ser sincero, ninguém nunca me ajudou nesse processo. Eu nunca tive coach nem estudei Omaha com ninguém”, diz Dante, que migrou para a modalidade em 2013, quando as mesas mais caras de cash em Fortaleza migraram do NLH para o PLO.

“A evolução no Omaha é constante, porque, ao contrário do Hold’em, o conteúdo sobre a modalidade ainda é pequeno. Então existe uma margem muito grande para aprender. O Omaha é como se fosse o NLH dez anos atrás. Não tem tanta informação ainda. Então quem joga há bastante tempo, tem vantagem”, diz Dante, que ressalta a experiência, como diferencial em seu jogo. “São muitas mãos jogadas”.

Sou um Cash gamer “aventureiro”

Dante começou no poker jogando com amigos, duas vezes por semana, no home game do prédio da família, em 2007; depois passou a frequentar os clubes locais, em Fortaleza. Foi lá, inicialmente no poker ao vivo, que nasceu sua relação com os ring games.

O cash foi o primeiro ganha pão e continua tendo participação significativa no grind diário do jogador.

“Meus primeiros anos como profissional foram jogando cash game live de Hold’em; e depois e eu mudei, conforme os jogos mais caros mudaram de modalidade”, lembra o jogador.

“Até hoje eu me considero um cash gamer que se aventura nos MTTs. Até hoje dedico – em média – mais tempo ao cash do que aos torneios. Varia de acordo com a época. Quando acontecem as séries eu jogo menos cash, mas, no geral, eu invisto mais em mesas no cash do que nos torneios”, diz o jogador.

Dante pode até se considerar um aventureiro em torneios, mas os resultados e sua rotina mostram que ele se tornou um caso raro de regular de alto nível nas duas vertentes de poker.

Atualmente, o cearense alterna sua rotina entre os torneios de US$ 1 K (PLO) e US$ 250 (NLH) e mesas de $10/$20 (PLO).

E por mais que a maior parte de seu dinheiro esteja investido nas mesas de cash, o reconhecimento maior – pelo menos do fã de poker médio – vem dos big hits em torneios.

Seis meses antes do fantástico desempenho no Poker Masters PLO, Dante superou pela primeira a marca seis dígitos em uma premiação. Em dezembro de 2019, foi terceiro lugar no torneio Half Price Sunday Million e levou 122 mil dólares.

“No ano passado eu ganhei meu primeiro prêmio de seis dígitos e isso tira um peso muito grande. Quando você é profissional há muito tempo, todas as vezes que você chega a uma reta final, que paga muito caro, você fica com um peso”, diz Dante, que tem conseguido resultados cada vez maiores nos MTTs e já pode jogar sem tanta pressão nas costas.

As premiações de Dante Goya colocam o grinder entre os melhores, principalmente nos eventos PLO.

Mas ele garante que os maiores momentos da carreira não vieram em nenhuma série – nem mesmo no renomado Poker Masters, mas nas dezenas de sessões de cash game high stakes das quais participou, seja ao vivo ou online, e poucos puderam testemunhar.

Encontro aleatório com Gus Hansen

O encontro com Hansen é uma das melhores histórias de Dante no cash

Era um dia qualquer, no começo de 2019, e Dante “zapeava” pelas mesas de high stakes do partypoker a procura da oportunidade ideal. Buscava o alvo certo – o fish, se preferir – e encontrou o que queria da maneira mais inesperada.

Sentado, sozinho e a espera de um rival, numa mesa de PLO, com blinds de US$ 10/ US$ 25, estava o lendário – mas perdedor nos high stakes online – Gus Hansen.

Não é sempre que se encontra por acaso alguém como Hansen “perdido” por aí. Dante – sabendo disso e também do edge que tinha sobre o rival – não pensou duas vezes antes de engatar na sessão. Era a chance dupla: um encontro que poderia render tanto uma ótima história (no pior cenário, pelo menos isso) e um bom dinheiro. Foi exatamente o que aconteceu.

“Foi uma sessão muito boa, porque como todos sabem o Gus Hansen é mega perdedor no online e o estilo de jogo dele pro jogo de hoje em dia não é bom e boa parte das perdas dele no online são no Omaha”, lembra Dante.

“Foi há mais ou menos um ano atrás. Eu estava olhando o lobby do partypoker à noite e por acaso eu vi ele sentado e ninguém próximo. Então eu sentei e a gente jogou algumas mãos sozinhos, umas 10 mãos, e depois a mesa lotou, mas ficamos bastante tempo jogando”.

Os maiores up e downswings, muitos dos melhores jogadores, os duelos inesquecíveis e as mãos mais insanas mãos acontecem quando quase ninguém está olhando. E muitas vezes ficam registrados só na memória.

E é a esse universo ao qual pertence Dante Goya. Quando os holofotes dos torneios se apagam acontecem as sessões mais impressionantes. Algumas pelos personagens, como neste duelo com Hansen e outras pelos valores envolvidos.

 

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No online, as mesas mais caras que disputou Dante foram as de 200/400 dólares; no live – embora tenha experiência em jogos de US$ 25/ US$ 50 de Las Vegas – a sessão mais cara que disputou foi justamente no Brasil, promovida por Lula Belém, nos bastidores do Campeonato Brasileiro de Poker, com blinds de R$ 250/R$ 500.

Downswing: “às vezes o prejuízo é inevitável”

Com tanto dinheiro envolvido e rivais tão duros, seria um milagre se Dante não tivesse sofrido também com as temidas downswings. E ele não nega, já teve sequências de meses muito difíceis.

Momentos de baixa são inevitáveis e podem ser devastadores, em especial para jogadores como Dante, que não participa de times, não joga para investidores e raramente faz swapping, com exceção de algumas parcerias com o também cearense Victor Teixeira.

“Eu sou do time que diz: você assinou isso. Quando você joga poker diariamente, vai haver um período de alguns meses em que o prejuízo é inevitável. E as dificuldades são extremas”, diz o jogador, sobre como lidar as sequências ruins.

“Você ter prejuízo durante um mês gera um grande stress. É muito estressante. Mas você precisa ter em mente que uma hora o joga vira a seu favor, se você estiver fazendo tudo certo”, diz Dante, que, nos primeiros meses do segundo semestre de 2018, chegou a perder quase todo do lucro obtido no primeiro semestre daquele ano.

Rotina, saúde e bons hábitos

O abalo psicológico em momentos ruins pode destruir uma carreira no poker. Mas esse nunca foi o caso de Dante. O jogador aproveitou os momentos de baixa para corrigir não apenas eventuais erros técnicos, mas de método.

No ano passado, depois de ver boa parte de seu lucro ir embora em poucas semanas, mudou sua rotina e potencializou seus resultados.

Atualmente, o profissional dedica muita atenção a equilibrar a energia de seu corpo durante as sessões e torneios.

“De um ano para cá, decidi dar mais atenção à minha rotina como jogador e busquei descobrir em quais horários eu me sinto melhor e em que momento vou estar no meu pico durante o dia”, conta o jogador, sobre a mudança, que parece simples, mas vem fazendo diferença em seus resultados.

“Aprender como meu corpo funciona e como distribuir minha energia e foco foi um clique na minha carreira”, diz Dante, que também tem trabalhado para melhorar sua seleção de torneios. “Comecei escolher melhor onde eu me inscrevo. É um erro muito grande do jogador abrir um torneio que você não tem EV só por estar se sentindo confiante. Outro é misturar mesas de 6-max de Omaha com torneios de Hold’em”.

Um dos grandes nomes do poker nacional em junho, Dante obedece, há pelo menos um ano, uma disciplina mais rígida, com regras e horários. O que é sempre um desafio, principalmente, para quem vive também dos cash games – disponíveis 24 horas por dia.

Pela manhã, descansa; por volta de 14:00 e 15:00, inicia o grind, intercalando torneios e mesas; após 18:00, encerra o período de inscrição, para evitar disputar as fases finais sem o máximo de atenção possível.

“Antes”, diz o profissional, “quando dava 20:00 eu me pegava me inscrevendo em novos torneios, mesmo sabendo quem em pouco tempo eu já estaria já bem cansado”.

Japonês do Ceará para o mundo

Entre 1908 e 1930, cerca de 200 mil japoneses imigraram para o Brasil e se estabeleceram em sua maioria nos estados de São Paulo e Paraná. Foi essa também a história da família Goya, que chegou há quase 100 anos e se estabeleceu incialmente na cidade de Marília, no centro-oeste paulista.

Lá, no interior de São Paulo, ficaram até 1990, ano em que e Neusa, mãe de Dante, se mudou para o Ceará.

Em Fortaleza, onde quase não há descendentes de orientais, nasceu Dante, em 25 de fevereiro de 1993. “Japonês do Cerará”, como ele mesmo se define, Dante se acostumou desde o começo a ser “caso raro.É um dos únicos sanseis na região, um de poucos cearenses com buy-in médio de US$ 1k, um caso raro de sucesso em cash e MTT e de profissional brasileiro que chega no poker high stakes sem nunca integrar um time sequer.

 

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Mato e morro…♥️♥️.

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E história de Dante Goya mostra os diferentes caminhos podem levar ao poker high stakes. Mas não se engane, há, sim, também muito em comum entre eles e outros ‘sharks’: a busca constante pela excelência, o desejo e a capacidade evoluir, e a atenção com os detalhes, sobretudo.

Perguntados sobre quais ‘leaks’ possui, ele se esquiva, como faria qualquer profissional prudente, mas dá a dica – básica, mas sincera: “literalmente, tudo o que eu acho que pode evoluir, um pouco que seja, no meu jogo eu tento melhorar. Não é porque eu faço bem algo que eu me dou por satisfeito”.

Nem todos vão alcançar o sucesso pelos mesmos meios que Dante Goya. Mas é inegável que ele tem algo a ensinar.

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