No final de julho, o mineiro Dan Roussel, 49 anos, conquistou o título do ranking mensal da Liga partypoker e quebrou uma longa sequência de triunfos de estrangeiros no torneio.
Criada para servir como ponto de partida para novos jogadores no poker, a Liga dessa vez foi palco para o brilho de um veterano, com história antiga com o baralho, mas em busca de recomeçar e se reinventar no universo do poker online.
Dan é natural de Teófilo Otoni, mas foi em Belo Horizonte, na capital das Minas Gerais, que conheceu o poker, quase 30 anos atrás – quando a modalidade sequer estava estruturada no país – a quase uma década do início do poker online, a anos da popularização da internet no Brasil, quando celular era um exotismo desses que viram pauta nas matérias do Fantástico e uma linha de telefone fixo era sonho de consumo familiar e custava o preço de um carro usado.
“A primeira lembrança que tenho do Poker foi numa noite em meados de 1994, com colegas de trabalho e alguns frequentadores em um bar chamado Stadt Jever, em Belo Horizonte. Enquanto bebíamos, apareceu um baralho e começamos a jogar poker, um cash amigável”, lembra. “Em um dado momento, todos já tinham foldado a mão, exceto eu e mais um e no river. Ele fez uma aposta, mas eu não tinha mais dinheiro, então peguei o talão de cheques para apostar, mas os amigos não deixaram, então foi só o que eu tinha no bolso mesmo. Ganhei a mão, e foi um dinheiro que deu para custear umas 3 noitadas”.
Foi em 2005 que, de fato, o poker se estruturou no Brasil. Dan, portanto, conheceu o jogo antes da maioria dos jogadores referência no país. Mas aquela foi só uma breve experiência que deixou uma boa recordação. Mas ele só reencontraria a modalidade nove anos depois, em 2003, quando começava o boom do jogo online, na esteira do sucesso de Chris Moneymaker na WSOP daquele.
Uma história de idas e vindas
O poker apareceu novamente na vida de Dan em um momento de transição profissional, quando o hoje campeão da Liga partypoker era dono da “Firme”, uma locadora de vídeos e DVDs de Belo Horizonte – um negócio que não ia muito bem das pernas. “Ficava muitas horas sem ter o que fazer, navegando na internet, ocasião em que descobri o Poker Online”, conta.
Queridinhas do público nos anos 80 e 90 e programa indispensável de casais, famílias e cinéfilos em geral, a locadoras de vídeo viviam a era da decadência desde a virada do século. Em pouco tempo, assistir filmes em vídeo cassetes e DVDs viraria passatempo tão arcaico quanto usar fichas de telefone para conversar.

Locadora “Firme”, em Belo Horizonte – 2003
Em meio a esse momento de incerteza, o poker foi companhia e voltou à vida de Dan. Ficando cada vez mais presente – mesmo com uma dificuldade inicial de progredir no jogo.
“Fiz um depósito mínimo e comecei a jogar SNG de nove jogadores e todos os freerolls que apareciam. Perdia e ganhava, não progredindo bem. Daí passei a jogar depois que fechava a locadora, às 21:00, mas como tomava muito tempo, chegava em casa tarde, e a esposa começou a reclamar (com razão), pois minha filha tinha poucos meses e eu já passava muitas horas fora de casa de domingo a domingo. Então parei de jogar novamente.
Tentando evoluir
O poker se tornou uma paixão. O desafio a partir dali era torná-lo um hábito lucrativo e saudável. Dan queria ser melhor do que era, mas tinha família para criar e os desafios naturais da vida profissional. Como já era certo, o mercado de locadoras de vídeo desapareceu e ele se reencontrou como corretor de imóveis.
“Meses depois, fechei a locadora e fui trabalhar como corretor de imóveis, época em que jogava de vez em quando os freerolls ou algum SNG baratinho nos finais de semana. Novamente parei e fiquei anos sem jogar”, conta Dan.
Após um tempo distante, voltou a jogar, em 2012, e passou a intensificar sua dedicação ao jogo pouco a pouco. “Jogava eventualmente, assistia muitas vídeo-aulas do Akkari e outros no YouTube, e comecei a apresentar alguns pequenos resultados”, conta Dan. “Nessa época passei por três times, mas fiquei poucos meses, pois tomava muito tempo e jogava os mesmos limites que já jogava por conta própria”.
Nos últimos 18 anos, o poker foi, na maior parte do tempo, um passatempo. Desde 2016, porém, Dan tem conseguidos melhores resultados. os primeiros dois big hits vieram em julho daquele ano e renderam pouco mais de 3 mil dólares
“Nessa época, com banca própria, exatamente em 08/07/16, acertei meu primeiro Big Hit, 2º de 566 jogadores e levei US$1.070 e, cinco dias depois, no dia 13/07, veio o maior Big Hit até hoje: US$1.951, cravando em cima de 592 jogadores”, lembra, o jogador que vendeu as fichas e usou parte do dinheiro para pagar dívidas e outra fatia – cerca de US$300 – para comprar um curso ministrado por Caio Pessagno”
Dan fez, então, os primeiros amigos na comunidade e começou a vislumbrar a chance de jogar profissionalmente. E foi o que aconteceu em 2018.
“Faz três anos que vivo exclusivamente do poker, na mesma toada, jogando pouco, micros e freerolls, participando de todas as promoções e campeonatos online possíveis, sempre fazendo um bom controle de banca”, diz o jogador, que – se ainda não é um astro – consegue manter-se financeiramente estável: “Nunca quebrei e consigo pagar as contas”.
“É muito legal estar em evidência”
“Conheci a Liga através de publicação no Instagram, depois vi as chamadas na Twitch, e comecei a jogar no início desse ano”, diz Dan, que havia batido na trave em maio, quando terminou na quinta colocação.
Regular de torneios micro e small stakes, o jogador, com um buy-in médio atual de $ 5.50, tem à disposição uma série de torneios com inscrição nessa faixa que pagam muito bem, mas a Liga realmente lhe conquistou a preferência. Também, claro, pela premiação, mas muito pelo estilo da competição.
“Muito excitante!”, diz o jogador sobre a emoção de disputar um torneio que tem transmissão ao vivo todas as semanas, por meio da Twitch do partypoker. “Foi muito legal estar em evidência, ter o nome citado nas lives dos streamers que acompanho e diversos canais do partypoker, ser parabenizado por todos e curtido nas redes”.
Dan, além de curtir o reconhecimento, acredita também que a disputa do ranking mensal, que premia, antes de tudo a regularidade, confere um elemento especial de emoção ao torneio.
“Um ranking mantém nossa atenção e envolvimento ao longo de toda a competição, mesmo quando não está havendo jogo. Ver a classificação e saber que estamos indo bem e que podemos ganhar mantém a “chama acesa” por todo o período”, diz. “Em um torneio comum é aquela sanha de dar o melhor de si naquele momento, é só aquela chance, se ganhar algum valor, ótimo, senão, abre outra tela e segue o jogo”.
Em busca do bi – e muito mais
No poker, via de regra, se joga pelo dinheiro. Mas é bom fazer sucesso e ter reconhecimento. Aos 49 anos, Dan pode ser considerado veterano, mas ele está apenas começando a sentir o gosto das vitórias só agora. E ele quer mais – na Liga partypoker inclusive.
“Vencer a Liga novamente ainda esse ano é um deles”, diz o jogador, ao ser perguntado sobre seus objetivos no poker. “Também quero, como qualquer outro jogador, aumentar meu bankroll e ABI (buy-in médio). Creio que isso me dará mais tranquilidade e oportunidade de enfrentar fields menores, mais competitivos, aumentando as chances de bons prêmios”.
A Liga costuma ser o pontapé inicial para que jogadores em fase de evolução possam alçar voos mais altos. No caso de Dan, pode ser um marco na jovem carreira de um veterano que tenta evoluir sem cometer loucuras.
São muitos anos na modalidade, mas agora que começa a sentir o gosto das vitórias, Dan, que tem um histórico de idas e vindas no poker profissional, se divertiu na disputa do ranking de julho e não vai querer parar tão cedo. Ele venceu a Liga e quer vencer no poker.
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