Na noite de 26 de maio, Luiz Duarte fez buy-in de 109 dólares no Mini WPT Deepstacks – um dos torneios mais cobiçados do calendário virtual do World Poker Tour – e mergulhou num field com 1317 entradas e alguns dos melhores regulares do mundo.

Quase 30 horas depois – no início da madrugada do dia 28 –, o brasileiro era um de dois jogadores ainda “vivos” na última mão do torneio.

O título, no fim das contas, ficou com o ucraniano Anton Yakuba . Em compensação, Luiz – que normalmente atua sob o nick justholdplz, mas participou do torneio com seu nome real – conquistou $129.311 (valor obtido depois de acordo no heads-up) e conseguiu a segunda maior premiação na carreira – a maior no online.

Luiz ficou a detalhes do troféu, mas o vice foi uma conquista. Mais uma de muitas que fazem – há seis anos – esse paulista – nascido na capital, mas residente de Marília – um nome relevante do poker no Brasil.

OUTRO VICE HISTÓRICO: ROTEIRO PARECIDO, MAS CONTEXTO DIFERENTE

“(O vice no WPT) Foi um marco histórico, porque foi minha primeira premiação online de seis dígitos, mas este resultado não vai alterar muito minha carreira. Vou seguir jogando a grade que estou acostumado e que tenho certeza que bato e seguir estudando para eventualmente bater os torneios acima de $2k online e $25k ao vivo”.

Assim o jogador – que concedeu entrevista ao blog do partypoker na semana passada – respondeu ao ser perguntado sobre o impacto deste super hit no prosseguimento de sua carreira.

“Se você fizesse essa mesma pergunta em 2014, a resposta seria diferente”, prossegue Luiz, que atualmente atua regularmente em torneios de US$ 530 e US$ 1K no poker online e em eventos da faixa de 5 a 10 mil dólares nos circuitos ao vivo.

A resposta seria outra porque o Luiz Antonio Duarte Ferreira Filho de 2020 – embora tenha nos registros exatamente o mesmo nome, CPF e RG e impressões digitais de 2014 – é, em muitos aspectos, um jogador e homem diferente daquele de seis anos atrás.

TRÊS BLINDS NA MÃO; 700 K NO BOLSO

Foi justamente em 2014 – que Luiz viveu o início de um “conto de fadas” que começou na mesa 62 (assento 3) do hotel WTC Sheraton, em São Paulo, durante a disputa do Dia 2 do Main Event do BSOP MILLIONS.

Luiz era mais um na multidão quando se viu com apenas três blinds e muito perto de ser eliminado. O que era uma derrota anunciada se tornou uma virada daquelas que só o poker proporciona. Ele tinha um punhado de fichas no stack, mas, no final, como diz o meme do momento, “deu tudo certo”.

Assim como neste WPT Online, Luiz foi vice, mas teve motivos para festejar como campeão. Em 2020, a premiação foi de 129 mil dólares (cerca de 645 mil reais); em 2014, levou R$ 710.000 que transformaram sua história como jogador.

Aos 24 anos, Luiz – que tem no currículo os cursos de administração, pela Florida International University, e Engenharia Civil, pela Universidade de Araraquara – trabalhava, ao lado do pai, que é empresário produtor de café. Mas ele queria tentar viver do poker e usava o tempo livre para jogar.

Naquele momento, além de batalhar por resultados, era preciso convencer a si mesmo e também a seu pai de que o poker poderia ser a escolha ideal. “No começo de 2014, eu comecei a jogar um pouco mais online e consegui resultados mais expressivos que foram abrindo a mente dele, e no fim do ano eu tive meu big hit”, lembra o Luiz, que definiu os próximos passos em uma reunião, no Rio de Janeiro, dias depois da conquista.

“Sentamos e decidimos, juntos, que no ano de 2015 iriamos fazer esse teste para ver se eu conseguia me profissionalizar de fato”, conta o vice-campeão do Mini WPT Deepstacks.

CONHECIDO E RECONHECIDO

Depois de conseguir um bankroll que lhe garantia a continuidade da carreira por pelo menos um ano, Luiz seguiu em frente e outros bons resultados vieram, principalmente nos circuitos nacionais de poker live.

Em 2015, venceu entre outros títulos, o ranking geral do Campeonato Paulista de Poker. No começo de 2016, levou um total de 321.490 mil reais depois de cravar dois High Rollers do Campeonato Brasileiro.

Ao final da temporada, era o brasileiro melhor colocado no ranking do Global Poker Index, o mais respeitado do poker ao vivo.

Respaldado por resultados expressivos, foi escolhido em 2016 e 2017 para representar a Seleção Paulista de poker, ao lado de nomes consagrados e gênios do esporte como Will Arruda, Rafael Moraes, Pedro Padilha e Thiago Decano.

 

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“Em termos de resultado, acredito que nesse período cheguei próximo da elite do poker nacional”, diz o jogador, que afirma, porém, nunca ter alcançado de fato no nível dos melhores. “Tecnicamente, eu nunca estive na elite do poker nacional, até pela minha bagagem no poker até então ter sido bem inferior a muitos ídolos consagrados já”.

AMADURECIMENTO 1: EVOLUÇÃO TÉCNICA

Por mais que tenha conquistado rapidamente resultados que todo profissional sonha em conseguir, Luiz percebeu rapidamente – mesmo enquanto obtinha bons resultados – que tinha muito o que aprender se quisesse sobreviver no poker por muito tempo.

Entre bons resultados, vieram alguns tombos, que serviram de alerta e aprendizado. “Olhando para trás, vejo que não jogava nada nessa época”, admite o jogador. “Eu me aventurei em torneios mais caros do que eu poderia bater e aprendi da forma mais dura”.

Um dos amigos que ajudou Luiz a expandir horizontes e ver que havia muito que aprender foi o paranaense Eduardo Garla. Os dois se aproximaram em Las Vegas, em 2015, e firmaram uma parceria que seria fundamental no prosseguimento de sua carreira do jogador.

“O Garla foi responsável pelo meu maior salto de evolução. Fizemos amizade na minha primeira ida ao WSOP e passamos a temporada inteira juntos. Foi nesse momento que percebi que eu realmente ainda não sabia nada do jogo”, lembra Luiz.

Depois de passar um ano estudando com Garla, Luiz – que já tinha tido aulas com João Bauer e Alisson Piekazewicz nos primeiros anos de carreira – deu outro passo à frente.

Em maio de 2017, ele mergulhou finalmente no mundo online e firmou um contrato de um ano com o 4Bet Team.

AMADURENCIMENTO 2: PATERNIDADE

A passagem pelo principal time de poker do país, liderado por Marcos Sketch, Thiago Crema e pelo companheiro de Seleção Paulista, Will Arruda, coincidiu com o nascimento do primeiro de dois filhos de Luiz com a arquiteta Carol Rossetto Duarte.

 

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Muito feliz em poder reviver esse momento único, que é o nascimento de um filho. Família é tudo e é isso que nos fortalece em momentos como este. Me dói muito o coração ter que deixar meus dois amores mas eles são o por que da minha ida de última hora ao WSOP 2017. Muito feliz e sem palavras pra expressar minha gratidão por participar de mais uma WSOP ao lado do meu pai, que além de sempre me dar todo apoio está cada vez mais evoluindo como jogador e conquistando grandes resultados. Não poderia me esquecer da minha mãe que sempre me deu o maior apoio e vem sendo uma bela Avó, nos ajudando muito com o Theo. Sou muito abençoado pela familia que tenho. Confiante e muito feliz em também representar minha outra família – 4bet, e a seleção paulista em mais uma série internacional. Os coaches que tive no 4bet nesse período foram sinistros e isso só nos dá mais forças para seguir em busca da batida perfeita que o resultado é consequência. Tenho certeza que vamos fazer uma parceria de muito sucesso. GL a todos os amigos nesse fim de WSOP, tenho certeza q vamos trabalhar mto forte pra trazer mais um bracelete pro Brasil . #família #4bet #wsop

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Enquanto evoluía como jogador, Luiz virou pai e viveu uma experiência que lhe transformou como homem e como profissional. Se tornou menos impulsivo e mais disciplinado.

“A principal mudança foi que me fez valorizar mais o dinheiro e me trouxe disciplina em relação aos buy ins (…) Próximo de ser pai pela primeira vez eu entrei para o 4bet Team e eles me ajudaram muito nesse processo”, lembra o jogador. “Lá eu aprendi critérios importantes para montar a grade e selecionar torneios e desde praticamente só tenho jogado torneios que tenho certeza que bato”.

Foi também nessa época que Luiz se afastou consideravelmente do circuito ao vivo. “Durante o período de 2017- 2019, fiquei ausente do circuito do poker live principalmente devido ao nascimento dos meus filhos e eu preferi aproveitar o máximo desses momentos pois sempre foi meu maior sonho ser pai”, diz o jogador, que tem intenção de retornar à velha nos próximos meses. “Estou esperando o mundo voltar ao normal para poder voltar firme no circuito mundial”.

RETORNO AO LIVE

Com a pandemia do coronavírus ainda assolando o mundo é impossível saber quando Luiz poderá retornar aos grandes eventos ao vivo. Mesmo assim, é seguro dizer que o jogador estará ainda mais preparado do que estava há quatro anos, quando deu um tempo no circuito.

Luiz Duarte é o nono brasileiro com mais ganhos em torneios ao vivo na história – com $1.267.974, segundo o site Hendon Mob – e acaba de vir de super hit conquistado no último Mini WPT Deepstacks.

Ainda assim, segue acreditando que não pertence à elite do poker brasileiro. Pode soar exagerada a avaliação para alguém com tantos grandes resultados. De qualquer maneira, os efeitos da autocrítica constante têm feito bem ao jogador, que intensifica a cada dia sua preparação.

ESTUDO E EVOLUÇÃO

Atualmente, Luiz Duarte participa de uma série grupos de estudo. O mais frequente deles é formado por ele e mais três ex-alunos: Diogo OffqBert Ferreira e os irmãos Daniel e Marcelo Aziz.

“Em 2018, eles me procuraram para ter coaching comigo. E, rapidamente, passaram de alunos para companheiros de estudos e melhores amigos”, conta o jogador, que discute poker constantemente com uma lista enorme de outros profissionais.

“Entre eles estão: Luís Henrique Maciel, Juicer, Eduardo Silva, Michel Henrique, Carlos Levis, Alexandre Mantovani, Luis Feres, Paulo Victor, Gabriel Moura, Renato Kaneoya, Gabriel Borges, Jorge Thiago ”, lista o jogador, com cuidado para não deixar ninguém de fora.

“Conheci mais a fundo o Felipe Ketzer no KSOP RJ 2020 e desde então tem sido um amigo próximo, com quem estudo frequentemente”, ressalta Luiz.

PRESENTE E FUTURO: A VIDA DENTRO E FORA DO POKER

O nascimento dos filhos fez de Luiz um jogador mais criterioso e sustentável. E isso se refletiu não apenas na escolha dos torneios e buy-ins que disputa, mas também na maneira que administra seu bankroll fora do poker.

Luiz, atualmente, tem pelo menos três fontes de renda além do grind. “No momento tenho alguns alunos particulares e estou estudando oferecer um curso”, conta o jogador… e professor. “Antes da pandemia, dei um coaching presencial e tinha outro agendado, mas no momento só online”.

Fora do jogo, o profissional tem investimentos no mercado imobiliário, em parceria com a mulher, que é arquiteta, e no ramo da agricultura, junto com o pai, que é especialista na área.

A história da ascensão meteórica do jovem Luiz Duarte é inspiradora – especialmente para quem tiver à beira da eliminação em um torneio importante – e símbolo do que poker tem de mais incrível. Mas é a condução de carreira o deste paulista, que vai completar 30 anos na semana que vem, que mais ensina.

A paternidade é capaz de fazer o homem mudar significativamente a maneira de encarar a vida e o jogo.

Como todo jogador de poker. Ele vai correr riscos, mas – como todo bom jogador e bom pai –ele faz questão de ter as probabilidades a seu favor. “Antes eu era mais degenerado. Agora tenho que garantir que não falta nada em casa”, reconhece.

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