Por Felipe de Queiroz

Uma semana, dois dias, 22 horas e dois minutos depois, a história se repetiu e ele quase não acreditou. Veterano, VitinhO Dzi é daqueles que já viu de tudo no jogo, mas, neste caso, mesmo para ele a situação era inédita. Aliás, não para ele apenas, mas para qualquer grinder do planeta – pelo menos naquele momento.

Na noite sexta-feira, 15 de maio, a 00:34 minutos da madrugada, VitinhO Dzi – desta vez atuando com identidade real, Vitor Dzivielevski – conquistou o título do Mini 6-Max do WPT Online, depois de bater um field com 1.532 registrados e ficar com o prêmio de $22.230.

Até aí, nada de novo para um jogador com anos de carreira e premiação acumulada de mais de US$ 2 milhões no currículo. Esse título, porém, foi especial; aliás, foi histórico.

Da última mão do torneio ele lembra os detalhes: da apreensão a segundos do final à euforia ao saber que outro troféu seria seu. Estava nuts no river, com sequência, quando o britânico Tristan Taylor  caiu na armadilha e pagou o 3-bet all-in.

As fichas foram todas para o lado de Vitinho. Mas “a ficha” mesmo demorou um tempo para cair. “Quando o vilão deu call no meu shove no river (eu tendo o nuts) uma sensação maravilhosa tomou conta. Fiquei uns 20 minutos sem acreditar. Cravar um WPT… de novo”, conta o jogador, nosso personagem da semana no blog.

O brasileiro conquistava naquele início de madrugada seu segundo título na série e se tornava o primeiro grinder da história a vencer dois eventos da versão online do World Poker Tour – festival tradicional do poker live que estreou no partypoker em abril deste ano.

Nove dias antes, às 2:03 de terça-feira, cinco de maio, o jogador havia conquistado o WPT #02 – Mini Knockout: US$ 500 k GTD e ficado com a premiação total de US$ 57.686 – depois de superar 2.548 adversários.

WPT, SONHO DE ADOLESCÊNCIA

As cravadas em espaço tão curto de tempo colocaram Vitor na história do partypoker e do WPT. Mas, mesmo que não tivesse sido inédita, a façanha já seria suficientemente espetacular

Ganhar duas vezes foi a cereja do bolo nestes 10 dias incríveis. Mas o primeiro troféu, mesmo se viesse sozinho, já seria a realização de um sonho.

Esse curitibano de 32 anos, há tanto tempo no meio, foi apresentado ao poker – ainda na adolescência – justamente assistindo os clássicos torneios do World Poker Tour na grade durante as madrugadas na ESPN Internacional.

Sem dúvida é especial! Da nossa geração, é muito difícil encontrar quem não tenha assistido aos eventos do WPT pela TV”, diz o jogador, a procura de palavras para descrever o que lhe passou na primeira quinzena de maio. “Foi bem bizarro ter vencido os dois praticamente na mesma semana. Eram eventos com fields grandes então foi uma surpresa também para mim. E poder cravar 2 eventos então… foi inacreditável”.

11 ANOS ANTES… “AS PIORES IDEIAS DO MUNDO PASSARAM PELA CABEÇA…”

Duas semanas depois, a mão decisiva, a energia a comemoração e o êxtase das vitórias no WPT ainda ocupam a mente de VitinhO Dzi. Em breve, provavelmente as imagens serão substituídas pelas de outras vitórias que estão por vir. Afinal, lembranças vem e vão.

Mas existem memórias que nunca se apagam e ficam mais claras na mente de Vitor a cada vitória que o poker proporcione a ele ou à sua família.

Vitor é irmão mais velho de Yuri Martins Dzivielevski – também conhecido como theNERDguy e um dos grandes jogadores da história; foi ele que ensinou o poker ao caçula, no começo dos anos 2000. Eram dois piás – como se diz em Curitiba – VitinhO Dzi tinha 14 anos e o Yuri apenas 10.

Assim, lúdico e divertido, foi o começo no jogo, mas a entrada no profissionalismo só aconteceria quase 10 anos depois. E veio em tempos difíceis, impulsionada por uma experiência familiar triste e inesquecível.

Em 2009, o pai dos irmãos, Irineu, quebrou. Depois de 32 anos trabalhando no mercado de finanças, o chefe da família Dzivielevski tinha aberto, em 2008, sua própria empresa de factoring (operação financeira pela qual uma empresa vende seus direitos creditórios), mas o negócio não deu certo.

Formado em Ciências Contábeis pela Universidade Federal de Paraná, Vitor, aos 22 anos, estruturava sua vida para seguir no mesmo ramo do pai – para quem, inclusive, trabalhava –, quando se viu obrigado a ajustar sua rota.

“As piores ideias do mundo passaram pela cabeça do meu pai. Minha mãe teve depressão e emagreceu uns 20kg. Foi sinistro”, lembra o jogador, 11 anos depois, sobre o período terrível pelo qual passou sua família.

POKER FOI A SALVAÇÃO

Com o pai impedido, momentaneamente, de prover a casa, os irmãos foram à luta. E o poker, tantas vezes acusado de destruir famílias, foi neste caso a salvação. Tanto Vitor como o irmão acabaram investindo numa carreira profissional que – agora todos sabemos – deu muito certo.


Mas isso não aconteceu imediatamente. Antes, por um ano, o irmão mais velho trabalhou na antiga Liga Curitibana de poker – atualmente H2Club de Curitiba – e ajudou a sustentar sua família atuando como dealer, enquanto fazia aumentar seu bankroll e se consolidava como jogador lucrativo de torneios Sit and Go.

“Eu fiquei quase um ano em um emprego ‘sem variância’ antes de migrar por completo para o poker. Só larguei o emprego de dealer quando já ganhava constantemente online e tinha gordura para bancar a casa por um tempo”, conta o jogador.

“Há males que vem para a bem”, diz o velho ditado. Foi exatamente isso o que aconteceu na família Dzivielevski: “Isso fez com que eu e o Yuri buscássemos nos mexer pelas próprias pernas”.

INFLUÊNCIAS, PARCERIAS E EVOLUÇÃO TÉCNICA

Irmãos, theNERDguy e VitinhO Dzi têm carreiras bem-sucedidas individualmente, mas sempre procuraram estar juntos, ajudando um ao outro. Com 10 anos no meio, Vitor define Yuri como figura fundamental na sua evolução como profissional.

“Em primeiro lugar, meu irmão, Yuri “theNERDguy” porque ele sempre deu a cara para bater primeiro. E isso tanto deixava o terreno mais limpo para mim quanto me incentivava a fazer mais”, diz Vitor, ao lembrar de quem mais lhe ajudou e influenciou na carreira.

Quando fala em “dar a cara para bater”, VitinhO Dzi se refere à vocação do irmão para correr riscos. “Yuri sempre foi mais desapegado. Sempre gostou de adrenalina. Diferente de mim. Exemplo disso sempre foram os “tiros” que ele dava para tentar alavancar o bankroll”, diz o profissional.

Vitor pode não ter como característica inata a ousadia do irmão. Mas, ao longo dos anos, aprendeu a correr riscos calculados: “Minha maior qualidade mental é o ótimo controle do medo. Se é bom fazer eu faço e não me preocupo com as consequências e muito menos com o que os outros jogadores irão pensar”.

Uma evolução que vem do investimento de anos no estudo e também da troca de ideias com outros grandes jogadores. “Eu sempre fiz coach. Sempre usei boa parte dos meus ganhos para evoluir ainda mais”, diz o profissional, que no começo de carreira fez parte do 4BetTeam – equipe comandada na época por Will Arruda e Marcos Sketch – e depois fez uma série de parcerias pontuais.

Um dos mentores do curitibano foi Rene Kuhlman , jogador de cash games e mais conhecido no poker online como TheWakko. Vitor – que é profissional tanto em torneios como nos ring games – conheceu o holandês quando era regular nas mesas de NL200. “Ele me deu aulas por três anos me levando a dar tiros no NL1k”, conta.

Matheus “Zinhão” Carrion, um dos parceiros de Vitor no jogo

Outras duas figuras fundamentais na evolução de VitinhO Dzi são Pedro “Pvigar” Garagnani – amigo e craque do jogo, tantas vezes fundamental com conselhos pontuais – e Matheus “Zinhao” Carrion – um dos principais especialistas em cash game no país.

“Cash”, aliás, que sempre foi um dos focos na carreira de Vitor, embora muitos – ou pelo menos o fã de poker mais superficial – nem percebam e lembrem dele pelos resultados expressivos nos torneios. “Sempre foi a minha paixão! Mas como nos MTTs há a possibilidade dos “big hits” e eu ja fui agraciado algumas vezes, não consigo deixar de jogar torneios”, diz o jogador, que atualmente é regular nos jogos heads-up.

TEMPOS DE BAIXA E PROFISSIONALISMO

“O pior do poker é lidar com stress emocional ao enfrentar oscilações negativas que passamos. Não é nada fácil”. Assim, VitinhO Dzi define o lado ruim da profissão que lhe deu tanto, mas, mesmo assim, segue desafiadora.

Pvigar, craque do online e parceira na discussão de mãos

Pvigar, craque do online e parceira na discussão de mãos

Por mais que seja experiente e saiba lidar com as dificuldades de viver do jogo, Vitor, admite, já teve momentos de baixa, em que foi inconsistente, por não ter se dedicado tanto o quanto poderia a seu jogo.

“Eu perdi o foco por uns 3 anos. De 2016 a 2018. Não deixei de jogar, mas não era com dedicação que eu gostaria”, conta o jogador. “Estava me dedicando a outras áreas da minha vida”.

Não é fácil evitar o cansaço mental. E neste caso, Vitor demorou quase três anos para recuperar seu prumo. Desde, 2019, porém, voltou com tudo. E agora, acredita ele, está no em seu melhor momento.

Não apenas por resultados como os dois títulos no WPT, mas por ter estruturado de maneira sólida sua carreira. Atualmente, além de jogar, ele é sócio de dois times de poker.

JOGADOR E EMPRESÁRIO

“Estou no auge da minha dedicação! Joguei 2500 jogos em maio e junto o VHDPOKERTEAM, temos planos de estudos intensos agora pós série”, diz o profissional. O VHD (sigla para Vitor Hugo Dzivielevski) foi o primeiro time formado VitinhO Dzi; a ideia nasceu em 2014, a partir de sugestão do irmão Yuri – que já explorava esse mercado – e atualmente é um time de mid/high stakes.

O segundo empreendimento do jogador é a criação do Aldeia Poker. Esta equipe, formada em parceria com Álvaro “writeUrstory” Pinheiro e Daniel “danieldl7” Araújo, tem como foco jogos de stake baixo (micro/low) e atualmente conta com 50 alunos.

O poker online evolui em ritmo acelerado e Vitor, profissional nos últimos 10 anos, sabe bem como os fields ficam a cada dia mais competitivos. “Poker é um jogo em que você não pode nunca parar de estudar. Ele anda lado a lado com a tecnologia e essa não para de evoluir”.

IMPROVÁVEL E IMPREVISÍVEL: LIÇÕES DO PASSADO E OLHAR NO FUTURO

O estudo e a preparação são, aliás, armas do jogador para encarar o futuro em um meio que pode ser imprevisível e improvável, tal qual é a própria vida cotidiana.

“Improvável”, aliás, é que você consiga soletrar Dzivielevski, sem hesitar. Mas se você é fã de poker sabe muito bem de que família se trata. Como “imprevisível” é vencer dois eventos do WPT Online em 10 dias.

As duas palavras resumem a história do Vitor e de sua família. E se a factoring nunca tivesse falido? Seria hoje VitinhO Dzi apenas Vitor Hugo, o sucessor natural do pai, ou teria rumado para o poker mesmo assim? Neste caso, é mesmo “impossível” saber as respostas.

Essa lição, Vitor Hugo Dzivielevski aprendeu com a vida: quando você menos espera, as coisas podem mudar, para o bem ou para o mal. Mesmo assim, é preciso correr os riscos necessários, já que as oportunidades estão em cada canto, até na crise.

Por isso, o profissional diversifica suas áreas de atuação (cash, MTTs, jogador, coach e backer), mas guiado por um norte comum: a capacitação: “Para o futuro, planejo mais e mais estudos! Até turbinei o PC para aguentar tudo que queremos fazer”, diz o jogador. VitinhO Dzi – experiente na vida e no poker – aprendeu a melhorar suas odds.

 

 

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