Luiz Guilherme Donnabella Orrico, o nome, colocado assim, completo, soa estranho para parte da comunidade do poker. Tudo fica mais familiar, porém, quando falamos de Guilherme Beavis – ou, simplesmente, ‘Teruliro‘, como também é conhecido o jogador, um dos destaques da edição 2021 do WPT World Online Championships.
Guilherme – de 35 anos e um dos melhores profissionais do poker online, venceu em 23 de agosto o $215 Opener, torneio que deu o pontapé inicial na série. A vitória do grinder – que jogou o torneio usando o primeiro e último nome – Luiz Orrico – veio depois de superar um field de 4.777 entradas e lhe rendeu $93.752.
Resultado daqueles que mudam a vida de alguns jogadores; para Guilherme, foi ao mesmo tempo um respiro e a confirmação de que está no caminho certo; mais um big hit para uma coleção recheada – que já conta com diversos títulos nas principais séries do poker online, sendo dois só no World Poker Tour.
Um ano atrás, o brasileiro conquistou o evento 39 do WPT Online – $530 Pot Limit Omaha Hi-Lo Knockout – e ficou com $14.335. O desta temporada, bem mais expressivo, é o maior da carreira do jogador, superando, por pouco, os $92.287 conquistados num evento do WCOOP, em 2019.
Colônia, Alemanha – 2008 – Aos 22 anos, Luiz Guilherme tinha toda a juventude e muita disposição quando desembarcou em Colônia, na Alemanha. Dividindo tempo entre o curso de Engenharia Mecânica, na Universidade Federal de Uberlândia, e uma carreira promissora nos e-sports, o jovem realizava um sonho: representar o Brasil e disputar o evento mais importante do universo gamer da época.
Era novembro de 2008 e Luiz integrava a Seleção Brasileira que estava na Alemanha para disputar o World Cyber Games 2008 (WCG), o maior campeonato de games do mundo; um dos melhores jogadores de Fifa do país, ele tinha no currículo o vice-campeonato da etapa brasileira do WCG, disputada em julho do mesmo ano.
Ele tinha ideia de que aquele seria um momento especial; imaginava que poderia ser um divisor de águas na sua carreira como profissional de e-sports. Mas ele não sabia que aquela viagem transformaria sua vida e trajetória profissional.
Um amigo para a vida…
Hoje afastado do poker Cássio Kiles, foi um dos maiores jogadores brasileiros da última década; criador do NineTales (grupo que reúne os maiores high-stakers do país) e atualmente sócio da Fúria (gigante dos e-sports), há 13 anos, o craque integrava, assim como Guilherme, a delegação brasileira na WCG; foi lá que se conheceram, ficaram amigos e foi a partir dessa amizade que Guilherme se aproximou do poker profissional.

Guilherme Teruliro Beavis (agachado, à esquerda) e Cássio Kiles, com a equipe brasileira no World Cyber Games 2008 (WCG)
Ótimo jogador de Fifa e Counter Strike, Guilherme não sabia, porém, se viveria do jogo ou se faria a vida como engenheiro.
O futuro, como costuma ser o de um jovem de 20 e poucos anos, era nebuloso, mas foi justamente nesse momento de encruzilhada que as coisas começaram a fazer sentido.
Dois anos depois de conhecer Cássio, Guilherme se formou, em 2010. Tinha 24 anos, buscava dinheiro para iniciar uma vida independente, quando viu o amigo começar a se destacar no poker.
“Voltei a morar na casa da minha mãe e vi que o Cássio tinha entrado no 4bet, então pedi pra ele me indicar pro time (na época só era por indicações) pois precisava de dinheiro e não conseguia arrumar emprego”, conta o Guilherme, que havia aprendido a jogar poucos anos antes, com um amigo da faculdade.
Maior time de poker do mundo atualmente, o 4Bet – liderado na época por Will Arruda, Caio Brites e Marcos Sketch – havia sido fundado em janeiro daquele ano e em pouco tempo começaria a revolucionar o poker brasileiro, com investimento no treinamento de jogadores para competir em MTTs.
Guilherme viu no 4Bet a oportunidade de ganhar dinheiro, ainda que não tivesse a certeza que seria profissional por muitos anos. Indicado por Cássio, Teruliro foi apresentado a Will Arruda, fundador e responsável pelo departamento técnico do time desde aquela época.
Não foi tão simples o processo, porém. Novato, ele cortou um dobrado para convencer o instrutor a integrá-lo à equipe.“Fiquei seis meses enchendo o saco do Will Arruda”, lembra Guilherme, que nesse intervalo foi ‘stackeado’ por Caio Pessagno e Francisco “Chiconogue” Nogueira. “E só aí ele decidiu me colocar no time”.
Ser aceito deveria ser a parte feliz da história. E foi, mas não completamente. Deixar de lado a carreira na engenharia – especialmente para jogar poker – provocou uma crise familiar que virou a vida de Guilherme de cabeça para baixo.
“Fui expulso de casa na época por me aventurar no poker”, lembra o campeão do WPT Opener, que foi morar de favor com a namorada da época: “a quem sou amigo e grato até hoje pelo apoio”.
Pressão, evolução e consolidação
Com histórico de bons resultados no competitivo meio dos e-Sports, Guilherme se adaptou bem ao poker e à cultura do 4Bet; aos poucos, se consolidou como regular lucrativo.
Apesar de acontecer naturalmente, os meses de evolução não foram tranquilos. A necessidade de fazer vingar o plano de ser profissional e ser independente financeiramente colocou o jogador sob pressão, em uma situação sem margem de erro.
“Quando entrei no time, tinha prazo de seis meses para conseguir ganhar dinheiro, porque morava de favor e me cobrava muito”, lembra o jogador, que queria resultados “pra ontem” e passou a estudar e jogar em ritmo frenético. “Meti a cara nos estudos e grindava feito louco. Não tinha noção de que poker é um jogo de longo prazo”.
Como o próprio admite, Guilherme ignorou, a princípio, o fator variância da equação. A possibilidade de fracasso inicial, portanto, era real, mas não se concretizou.
O jogador não apenas foi lucrativo desde o começo, como, em pouco tempo, subiu seu nível de buy-in e conquistou, em menos de um ano, os esperados hits. Um dos primeiros resultados na casa dos cinco dígitos veio em janeiro de 2012, com cerca de um ano no 4Bet: 22 mil dólares ao cravar um evento de $109.
De jogador a instrutor
A carreira de Guilherme engrenou de tal maneira que ele ganhou não apenas dinheiro, mas respeito e prestígio dentro da comunidade. Um dos símbolos desse reconhecimento veio ao ser promovido a instrutor dentro do 4Bet, em 2015.
“Virei instrutor do time deve fazer uns 5/6 anos já, assim que o 4bet resolveu criar alguns “tiers” dentro do time”, diz o jogador, que desde então divide seu tempo entre jogar e ensinar.
Teruliro treina atualmente jogadores de mid-low stakes, ao mesmo tempo que enfrenta rivais de alto nível em torneios com buy-in médio de 250 dólares – como foi o caso do Opener, de $ 215.
“Hoje ando bastante focado nos torneios mais caros dentro de um projeto que o 4bet me apresentou, então tenho cortado algumas telas de menores valores”, afirma o jogador.
Trabalho duro, mas muita fé
A fórmula mágica do sucesso no poker não existe. Ou melhor: existe de maneira diferente para cada um. Para Guilherme “Teruliro” Beavis, a equação envolve: trabalhar duro,ter bons mestres e fé.
“Meus instrutores e amigos William Arruda, Rafael Moraes e Thiago Crema são os principais responsáveis por me tornar o jogador que sou hoje, tanto na parte técnica quanto na psicológica. Sou e serei eternamente grato a cada um deles”, reconhece o jogador.
Por outro lado, Guilherme ressalta o papel da fé e da religião em suas conquistas. “Como sempre digo: o que tiver que ser será, acredito muito nos planos de Deus, e fui abençoado com várias conquistas logo nos primeiros meses, e consegui me manter como poker player”.
A religiosidade ocupa espaço importante na vida do jogador e ganha importância especialmente em momentos de baixa, como vinha sendo o ano de 2021.
O título do WPT Opener, o maior big hit da carreira de Teruliro, interrompe um downswing que se arrastava desde o final do ano passado e recoloca o balanço do jogador nos eixos: “Não tenho costume de ir às missas, mas rezo todas as noites e agradeço todos os dias por tudo que acontece comigo”.
Guilherme está acostumado a extrair o melhor das ironias e golpes do destino. Com ele, o acaso joga a favor; ele encontrou o poker quando buscava ser uma figura de elite nos e-sports e conheceu o sucesso quando foi expulso de casa.
“Sempre tenho fé que algo bom está preparado pra mim novamente, esse ano demorou mas veio”, diz o jogador. “Tudo tem seu tempo, não podemos atropelar os planos que Deus tem pra nós, às vezes dói entender, mas sempre que precisei ele esteve comigo”.
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